Orgulho e Preconceito | Jane Austen

“It is a truth universally acknowledged, that a single man in possession of a good fortune, must be in want of a wife.”

“É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro que possua uma boa fortuna deve estar necessitado de uma esposa.”

E com essas palavras, Jane Austen começou um dos maiores romances da literatura. Ela é tão genial que nessa única frase dá pra perceber várias dos temas da narrativa: óbvio que a verdade universal está sendo dita de forma irônica, como grande parte das afirmações durante a história. E claro que o ‘must be in want of a wife‘ é uma afirmação que vem da sociedade, e não da realidade. E certamente que o solteiro rico procurando esposa é um dos temas centrais da história.

O conto de fadas segue Jane e Elizabeth, duas irmãs de classe média que não tem opção de futuro a não ser se casar, e de preferência com um homem abastado. Enquanto Jane logo se apaixona por Mr. Bingley, um jovem rico, bonito e atencioso, Elizabeth imediatamente se desentende com Mr. Darcy, um jovem rico, bonito e arrogante. O romance vai se desenrolando, cheio de desentendimentos e desencontros, com Jane crédula e Elizabeth sarcástica, Bingley inocente e Darcy presunçoso.

E o que é que faz de Darcy o favorito de todas as moças por quase duzentos anos? À primeira vista, ele é o que todos os chorões reclamam: ele é grosso e mala, mas vocês ignoram essa parte só porque ele é rico e bonito. Mas vamos olhar com calma. Darcy salvou a irmã e nunca a culpou pela indiscrição, numa sociedade em que ela teria tido a reputação destruída por suas atitudes. Ele se culpa pelo que aconteceu com Lydia, faz de tudo para resolver o problema, se une ao homem que ele mais detesta, tudo isso por que está apaixonado, e tudo isso sem querer ser identificado ou agradecido: ele faz as boas ações sem esperar nada em troca. Ele percebe sozinho como ele foi errado nas suas opiniões, tenta ao máximo desfazer o mal que fez com Jane e Bingley, até fica de birra com a própria família quando maltratam Elizabeth – em suma, demonstra através das suas ações que de fato mudou por ela, em vez de só falar que ia mudar. É essa atitude que as moças apreciam –  mesmo que sim, ele ser bonito, rico e alto tenha muito a ver com a história.

Afora o romance fofo, como pano de fundo de fundo da história temos a situação da mulher de classe média dentro da sociedade inglesa do início do século XIX; passando por duas visões de mundo opostas: o povo das antigas quer manter tudo como está, e não aceita mudanças de classe nem alpinistas sociais; o povo jovem e moderno está mais interessado em uma afinidade pessoal, respeito mútuo e relacionamentos baseados no amor e não no financeiro. Enquanto Eliza e Jane se divertem nas mansões, na vida real uma das irmãs delas é quase arruinada por um jovem de má reputação, e por pouco não fica destinada a ser abandonada pela família e virar prostituta, e a melhor amiga de Elizabeth não tem escolha a não ser se casar com um homem estúpido e desinteressante, já que nunca foi bonita e está ficando velha.

Há diversos personagens engraçados e caricatos, como Mrs. Bennet, a mãe das meninas, que só tem um assunto e um objetivo: ver as filhas casadas; ou Lady Catherine, um pilar de arrogância que faz questão de fazer caridade e receber os devidos elogios. Mas o livro também contém pessoas mais discretamente interessantes: Mr. Bennet, indulgente, omisso e sempre irônico, fadado a uma vida infeliz com a esposa com quem se casou e se arrependeu; Mary, “a irmã feia”, que também não é muito inteligente mas se dedica aos estudos como única forma de destaque; Mrs. Hurst, que se casou com um homem obviamente preguiçoso e gastador, e agora depende da boa vontade do irmão mais novo para manter o padrão social.

Toda vez que releio eu volto para um universo paralelo onde eu vejo as adaptações de 95 e 2005, e Bride and Prejudice, e The Lizzie Bennet Diaries, e Austenland pra fechar o arco. Cada releitura revela algo novo e interessante, e o livro nunca perde o charme. São duzentos anos de ironia que a gente nem sempre entende, de diálogos românticos imaginados, de frases deliciosamente irreverentes e da melhor cena de recusa de pedido de casamento, sem competição. A tradução da L&PM Pocket está muito boa, e dá pra curtir a prosa da autora com tranquilidade. Certamente um dos melhores e mais favoritos livros no mundo inteiro, e um livro que nunca canso de recomendar.

Pride and Prejudice (1813) – de Jane Austen 

Renata

Nas horas vagas eu jogo RPG e faço meus desenhos. Quando dá, eu leio. Se eu conseguir fazer pelo menos uma pessoa ficar feliz com os livros como eu fico já estou mais do que satisfeita com essa vida.

One thought on “Orgulho e Preconceito | Jane Austen

  1. Não tem livro que me chame mais atenção que esse. Orgulho e Preconceito tem falas tão inteligentes e uma narrativa tão bem montada que eu não consigo tirá-lo da lista dos meus livros preferidos.Mr. Darcy, pra mim, sempre foi o homem *dos sonhos* com defeitos toleráveis. Afinal, ninguém é perfeito e nem mesmo ele foge a essa regra. Eu simplesmente adoro esse livro.

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