Nathaniel é um jovem aprendiz de mago que vive em Londres. O cenário é o mundo moderno, porém os magos detém todo o poder, e o império Britânico domina o planeta. Portanto, Nathaniel é um jovem que aprende que, se fizer tudo corretamente e for um excelente serviçal do império, poderá até mesmo se tornar um dos membros do parlamento mais poderoso da terra. A forma como os magos conseguem poder é ao conjurar demônios usando círculos de convocação, obrigando os seres a virem do plano elemental onde habitam para o plano material. Conforme os magos vão adquirindo a habilidade de dominar demônios cada vez mais fortes, eles adquirem o poder que permite que subam pelos degraus do império.
A narrativa mostra a vida miserável de Nathaniel, que foi entregue aos cinco anos à família de um mago para aprender o ofício. Acontece que seu mestre, Underwood, é um mago medíocre, muito pouco capaz e praticamente ignorado nos corredores do governo, que não se importa com a educação de Nathaniel e trata o garoto com indiferença e negligência. Enquanto Nathaniel aprende tudo o que pode na intenção de impressionar o mestre, a única pessoa que trata Nathaniel com humanidade é Martha, a esposa de Underwood.
Aos dez anos, no entanto, Nathaniel é humilhado pelo jovem mago Lovelace sem que Underwood faça nada para impedi-lo. Esfumando de raiva, Nathaniel usa todas as suas forças para conseguir convocar Bartimaeus, um djinni de mais de 5000 anos de idade que não tem paciência nenhuma para quem está começando. A ordem que Nathaniel dá deixa o djinni intrigado: Nathaniel quer que Bartimaeus roube o Amuleto de Samarkand da coleção de Lovelace.
Isso faz com que Nathaniel acabe trombando com uma conspiração gigante que pretende simplesmente substituir todo o corpo governamental do império.
A trama do livro é interessante e divertida, e a rapidez da história é o suficiente para deixar a leitura ágil. Mas nada disso importa porque o livro é Bartimaeus.
A cada capítulo, a narrativa muda para primeira pessoa, e a voz de Bartimaeus – sarcástico, inteligente, independente e maravilhosamente irônico – dá a versão dele dos fatos, deixando bem claro para o leitor que o regime dos magos é nada mais do que escravidão para os espíritos dos planos elementais para dar poder aos humanos ambiciosos. Bartimaeus é um narrador divertidíssimo que faz com que o livro seja infinitamente melhor, deixando tudo memorável.
Quando Nathaniel o chama pela primeira vez, Bartimaeus pergunta cadê o mago poderoso que te mandou ser boi de piranha. Quando Nathaniel é obrigado a fugir de casa, Bartimaeus fica o tempo todo relembrando o garoto que ele vai morrer de fome na rua porque magos são inúteis. Quando Nathaniel é roubado por uma gangue de crianças de rua lideradas por uma menina estranha, Bartimaeus ri dele e fala que ele perdeu pra uma garota.
Enquanto a narrativa pelos olhos de Nathaniel é sombria e meio depressiva, Bartimaeus entremeia sua história com lembranças dos tempos antigos, quando foi chamado por outros magos em outras guerras, sempre com comentários irônicos a cada frase e notas de rodapé explicando as piadas dele.
A situação vai ficando mais crítica, porque Lovelace não aceita ser roubado tão facilmente: ele simplesmente mata Underwood e sua esposa, e manda demônios muito mais poderosos que Bartimaeus atrás de Nathaniel. Apesar de detestar todos os magos, Bartimaeus começa a ter certa simpatia pela perseverança do garoto, que jamais desiste mesmo diante das piores adversidades.
A ambientação do livro é muito interessante, a trama é bem feita, e Bartimaeus é um dos narradores mais divertidos que já li. Um excelente livro de fantasia juvenil que recomendo fortemente.
The Amulet of Samarkand (2003) de Jonathan Stroud (Reino Unido). Série Bartimaeus Livro 1