O maior fenômeno literário da nossa época é um aglomerado de ideias reacionárias permeado por tramas furadas e precisamos superar isso.
O discurso em volta dos livros do Harry Potter parece que nunca some. Primeiro a autora ficava voltando atrás pra contar pra gente coisas que eram verdade mesmo que não estivessem no texto, pra continuar na mídia e se fazer de progressista. Depois ela decidiu fazer a cruzada contra mulheres trans e se fazer de vítima após a reação da internet. E claro, os estúdios não viram a hora de lucrar em cima dos livros, e os filmes de Hollywood se transformaram num espetáculo à parte. Agora estão produzindo uma série remake e a discussão em 2026 é que querem fazer Snape negro e Voldemort mulher. Na era da pós-verdade, só vou acreditar quando sair a série.
É impressionante como os livros e os filmes ficaram no imaginário coletivo dos millenials como sendo cristais intocados de boa literatura. A conversa é sempre “devemos separar o artista da arte”, “não vou consumir as obras porque não concordo com a autora mas ela nunca vai conseguir destruir minha memória afetiva”, “nunca vou perdoar ela por ter estragado meu fandom favorito”.
Será que não daria pra gente dar uma olhada nas obras com a nossa idade atual e perceber que não eram livros tão bons assim? A memória afetiva pode existir mas a gente também pode olhar pra trás criticamente. Os livros ajudaram toda uma geração a ler mais, se sentir melhor sobre si, fazer parte de um coletivo. Mas também são livros de trama simplificada, elementos fantasiosos mal colocados e moral duvidosa. Não era o livro que era bom, era a gente que era tonha. Já passou da hora da gente deixar a obra cair no esquecimento não só pra deixar de dar dinheiro pra ela como também porque nem é uma obra que mereça ser reapresentada para as novas gerações.
A trama é mal feita
Quando a gente é criança, não temos a habilidade de perceber furos nas histórias. Daí a gente cresce, conhece mais da vida, lê mais coisa, assiste filme bom. E assiste muito dos filmes do Harry Potter também. E compara as coisas. Eu era a criança mais chata do rolê e com sete anos reclamava que “o livro era melhor”, então é óbvio que fui assistir o primeiro filme com o pé atrás porque “o livro ia ser melhor” (e era mesmo). Mas isso aos poucos me fez ver que os problemas do filme eram muitos, mas vários vinham do próprio livro.
Deus ex machina: expressão em latim vinda do teatro grego que significa literalmente “deus surgiu da máquina”, utilizada para indicar uma solução inesperada/mirabolante (magicamente providenciada por uma divindade) para terminar uma obra ficcional.
Com o tempo, o uso da expressão tornou-se amplo e passou a referir-se também não apenas ao surgimento de divindades, mas também de personagens, artefatos, ou eventos inesperados, artificiais ou improváveis, introduzidos repentinamente na trama com o mesmo objetivo: resolver uma situação intransponível ou simplificar o enredo.
A Pedra Filosofal
O conto de fadas virando realidade: o garoto mal tratado que mora embaixo da escada descobre não só que na realidade faz parte de um mundo fantasioso incrível como também descobre que ele é nada mais nada menos que a pessoa mais especial desse mundo. Ele é o mais rico, o mais famoso, herdeiro de uma fortuna imensa e de pais sem defeitos. Ele não tem dificuldade alguma em fazer amigos, tem habilidade sobrenatural com o esporte do rolê, consegue escolher em qual grupo ficar, e o único conflito qu ee ele tem de início é que tem um professor que não gosta muito dele. Ele arranja um amigo que explica o mundo bruxo pra ele, e arranja uma amiga que faz a lição de casa dele.
A ideia do livro é ser uma história onde as crianças resolvem tudo enquanto os adultos são um bando de inúteis, o que é bastante comum em vários livros infantis. A narrativa bem humorada da autora pincelada com elementos fantasiosos funciona bem, e o livro certamente é divertido.
Mas não dá pra deixar de perceber que o Harry é um baita de um mimado privilegiado assim que ele pisa no mundo bruxo; Dumbledore é um incompetente de trazer a pedra pra Hogwarts; Hagrid não deveria ser responsável por coisa alguma; Harry escapou por que o livro quis; e Dumbledore privilegia a Grifinória sem nenhuma vergonha.
Harry 0 x 1 Deus ex machina amor de mãe
A Câmara Secreta
Conhecemos os supremacistas bruxos escravocratas, tem também a irmã do Rony que existe pra ser obcecada pelo Harry, e descobrimos que a escola foi construída por um bruxo que queria assassinar os próprios alunos. Aparentemente nada foi feito pra encontrar a câmara secreta em todo esse tempo.
O ministério da magia sabe quando fazem magia na casa de um bruxo menor de idade mas não sabe quem fez essa magia. Um membro do ministério faz experimentos ilegais com invenções humanas mas é incapaz de ajudar o amigo do filho que está em cárcere privado. Uma escola permite que um charlatão seja professor da matéria mais perigosa. Hermione descobre tudo mais uma vez, Hagrid dá mais pistas de que é um incompetente que não deveria ser responsável por nada, Dumbledore não consegue resolver coisa alguma e Harry é salvo por um chapéu e um passarinho.
Harry 0 x 2 Deus ex machina Fawkes
O Prisioneiro de Azkaban
Não nego que é o melhor livro da série, mas também é o final mais troncho. Sirius Black foi preso “em flagrante” injustamente e ficou na prisão por anos, mas ninguém usou veritaserum nele. Hermione quer fazer todas as matérias disponíveis e em vez de ter uma orientação acadêmica pra ajudar ela a escolher (já que na primeira semana ela já percebe que na verdade não se identifica com uma matéria), eles dão pra ela uma máquina do tempo.
O mapa do maroto mostra Pettigrew pro Lupin mas os gêmeos passaram anos sem perceber um maluco na cama com o Rony. Dumbledore contrata um lobisomem como professor e Lupin prontamente esquece de tomar a poção e ataca alunos. Dumbledore permite que monstros sugadores de almas fiquem passeando pela escola. Hagrid novamente sendo um profissional tenebroso.
Hermione resolve tudo com o giratempo (que nunca mais é visto), enquanto Harry percebe que quem salvou o dia foi ele mesmo com um pouco menos de ansiedade.
Harry 0 x 3 Deus ex machina Harry do futuro
O Cálice de Fogo
Vamos rever o plano do vilão? Vamos.
O Voldemort precisa voltar usando o Harry. Eles precisam que o Harry encoste na chave de portal que vai levar ele pro mato onde o Voldemort tá fazendo o ritual. O plano então é: sequestrar um professor, colocar um maluco disfarçado no lugar dele (mas o professor precisa estar constantemente preso desacordado pro impostor conseguir pegar cabelo dele pra poção de disfarce), o impostor vai obrigar o Harry a participar do torneio, o impostor vai ajudar o Harry a ganhar o torneio, e o Harry vai encostar na taça e ser levado pro Voltemort.
Desconsiderando as milhares de oportunidades que o vilão teria de fazer o Harry encostar num objeto qualquer; ignorando o RH de Hogwarts que é incapaz de perceber a diferença entre um professor qualificado e um psicopata que passou a vida escondido pela família; que tipo de plano imbecil incluiria ter que fazer um moleque idiota mais novo que todo o resto passar por provas impossíveis? E se o Dumbledore simplesmente falasse “não sabemos como esse doidinho colocou o nome no cálice de fogo, a segurança do torneio está em jogo, vamos reconsiderar”? E se o Harry não fosse ajudado por toda a escola (incluindo o infeliz do Cedrico) e fosse incapaz de chegar na final?
Que plano idiota senhor.
Harry 0 x 4 Deus ex machina varinha mística
A Ordem da Fênix
Na época que saiu o livro, o Harry revoltado com tudo me encantou. Adoro gente revoltada que odeia tudo. Mas aí mataram meu personagem favorito de maneira estúpida. Sacanagem.
O ministério da magia quer destruir a reputação do Harry então resolve expulsar o garoto da escola mesmo diante de uma situação óbvia de legítima defesa. Daí o ministério coloca uma psicopata torturadora de crianças dentro de Hogwarts (não se preocupem que ela vai ser devidamente est*pr@da por centauros depois).
A Ordem da Fênix está lutando contra os supremacistas bruxos mas mantém escravos (ele não quer ser libertado, deixa ele) pra daí o escravo ir lá e mentir ahahaha bem feito. Harry passa o livro ouvindo que tem que ignorar as visões do Voldemort, daí ele não ignora e coloca tudo a perder. Sirius é um mimado que deveria ter passado o tempo na prisão refletindo sobre as merdas que fez e não fazendo bullying com o Snape de novo.
Harry começa a fazer aula de oclumência mas é um inútil. Ele e Cho estão tendo um namorico mas Harry não tem paciência, ela só chora. Uma amiga da Cho trai o grupo que o Harry formou (aparentemente o talento dele é ser professor de defesa contra as artes das trevas). Dumbledore escapa com facilidade dos guardas do ministério da magia e deixa seus aluninhos à mercê de Umbridge.
Harry cai no conto do Voltemort e vai para o ministério, onde prontamente é cercado por comensais da morte. Felizmente a Ordem da Fênix aparece para salvar o dia mas a Bellatrix mata o Sirius, Harry sai atrás dela sozinho, Voltemort possui o Harry na intenção de fazer Dumbledore matar o Harry. Daí o Harry pensa no Sirius e Voldemort desiste porque “não conseguia suportar o contato com uma mente preenchida com amor”.
Harry 0 x 5 Deus ex machina o poder do amor
O Enigma do Príncipe
Dumbledore é incapaz de contratar um professor sem ajuda de um aluno. Harry acha um livro super suspeito mas ignora todas as tentativas da Hermione de avisá-lo. Dumbledore encarrega um aluno de descobrir a verdade sobre uma memória de um professor sobre o bruxo mais perigoso da terra. Dumbledore sai por aí com um aluno para destruir horcruxes.
Harry começa a namorar a Gina porque ela não é como as outras garotas: ela até gosta de esportes! E certamente não se importa dele passar o tempo livre mais com os amigos do que com ela, porque ela entende.
Malfoy tenta matar Dumbledore mas quem faz isso é Snape. Harry sai correndo atrás do Snape pra tentar se vingar pela morte de Dumbledore. Ainda não sabemos mas Snape é o maior herói da história e não mata o Harry porque foi apaixonado pela mãe dele. Na verdade todo o final desse livro só vai fazer sentido quando lermos o próximo (se é que fazer sentido é o termo correto nesse caso).
Harry 0 x 6 Deus ex machina o grande plano de Dumbledore
As Relíquias da Morte
Harry sai por aí procurando horcruxes junto com Rony e Hermione de forma mal organizada, sem contato com notícias correntes e sem planejamento. A ‘sorte’ (objetos mágicos, pessoas ajudando do nada, pistas deixadas por Dumbledore, visões do Harry, etc) está sempre com eles e eles conseguem destruir o horcrux medalhão do Salazar Slytherin, o horcrux taça da Helga Hufflepuff e o horcrux diadema da Rowena Ravenclaw.
Durante a busca pelos horcruxes, o trio descobre sobre ‘as relíquias da morte’, cujo dono poderia dominar o mundo. As relíquias da morte seriam o manto da invisibilidade (que Harry convenientemente herdou do pai), a varinha das varinhas (que estaria com Dumbledore e teria sido roubada por Snape), e a pedra da ressurreição (que Dumbledore achou e entregou pro Harry via mensagem póstuma).
Harry vê Voltemort matando Snape e chega a tempo de pegar as memórias de Snape, descobrindo tudo o que rolou no passado desse pobre bruxo conflitado que levou um fora da mãe do Harry e se vingou virando nazista. Harry descobre todo o plano elaborado de Dumbledore que incluía não contar nada pro Harry e deixar o Harry crescer sem saber do poder do amor, do possível horcrux e do passado de Snape.
Sabendo de tudo isso, Harry resolve se entregar pro Voldemort, que mata ele. Porém na realidade o que rolou foi que Voldemort matou o próprio horcrux dentro do Harry, conforme Dumbledore explica pro Harry numa visão/sonho/experiência pós morte. Neville mata a cobra Nagini que é o último horcrux e agora Voldemort é mortal como qualquer outro homem. Começa a batalha de Hogwarts, muita gente mata e morre, e o confronto final de Harry com Voltemort tem o inimaginável resultado de que a varinha das varinhas nunca foi de Voldemort porque quem desarmou Dumbledore foi Draco que foi desarmado por Harry então quem é o verdadeiro dono da varinha é o Harry.
Harry 0 x Deus ex machina varinha técnica
O final é lamentável
E aí temos o infame epílogo. Harry Potter decide virar policial de bruxo, Hermione casa com o moleque burro que passou anos zoando com a cara dela por ela ser anti-escravidão (!), Ginny sai parindo vários filhos que vão ter nomes que o Harry escolheu (irmão dela que morreu protegendo o Harry certamente não merece nome de filho), e a história acaba ‘onde começou’, com as crianças entrando no trem pra Hogwarts.
Detalhe que o nome do infeliz do filho mais novo é Albus Severus “em homenagem aos bruxos mais corajosos que eu conheci” meu amigo um deles foi nazista que só resolveu ser agente duplo depois que a moça que ele queria foi assassinada pelos nazistas e o outro fez uma criança de cobaia por anos pra transformar ele numa arma depois. Vai fazer seu filho sofrer bullying a vida toda por ter nome ridículo e essa é sua motivação?
Claramente a autora achou que esse seria um final feliz pra sempre, porque na cabeça late boomer dela era isso que qualquer pessoa ia querer: casamento, filhos e vida estável. Mas ela estava escrevendo para os millenials, que viram o mundo pegar fogo, fazendo com que essa vida seja impossível pra gente. Crescemos vendo que vida padrão não é necessariamente vida melhor, que casamento é terrível pras mulheres, que policiais são armas do sistema, e que lutar pelo que é certo não inclui estabilidade.
Mesmo eu que amava os livros fiquei com gosto amargo na boca quando li o epílogo na época da publicação.
Gordofobia, machismo, racismo, e as tentativas posteriores
Todos os gordos são nojentos, engraçados, ou simplesmente pessoas malvadas. Todas as mulheres são “femininas bocós” ou “inteligentes que não-são-como-as-outras-garotas”. Todos os bruxos são supremacistas que querem ser superiores aos trouxas ou bonzinhos condescendentes que entendem que não é culpa dos trouxas que eles são inferiores. O sistema bruxo é escravagista e os elfos domésticos gostam de ser escravos e não querem ser liberados. Qualquer criatura não-humana no mundo dos bruxos ou não tem direitos ou é serviçal. O sistema bruxo é capitalista hereditário e Hogwarts perpetua e encoraja isso.
E aí depois que tudo foi publicado a autora veio falar que na verdade Dumbledore sempre foi homossexual. Veio dizer que na verdade ela nunca tinha falado de raça no livro mas se quiser enxergar a Hermione como negra fica à vontade. A Hermione. Que foi a única a defender elfos domésticos e foi ridicularizada por isso. Cuja única característica remotamente ‘não-branca’ é que ela tem cabelo armado. Que na primeira oportunidade alisa o cabelo pra ficar bonita. Ela que é pra gente pensar que ‘sempre foi’ negra. Enquanto que o cara do ministério da magia que de fato foi descrito como negro tem o nome de Kingsley… Shacklebolt.
Os livros do Harry Potter são reflexos da época em que foram escritos, e tá tudo bem. O que precisa mudar é essa falta de memória coletiva que coloca a obra como sendo intocável por causa da nostalgia enquanto ignora problemas que hoje não passariam no crivo dos mesmo leitores agora maduros.
O livro não é um pilar de ensinamentos para os jovens, mas é lembrado como tendo sido. O livro é um aglomerado de ideias fantasiosas e mitológicas jogadas sem crivo algum, com personagens adultos muito questionáveis, e personagens jovens totalmente criminosos (até os fãs mais fervorosos são incapazes de passar pano pra poção do amor dos Weasley).
Tem muita coisa boa nova sendo escrita, muitos autores fora do eixo branco do oeste global produzindo fantasia relevante. E tem muita coisa boa antiga não sendo lembrada. Vamos reler Ursula Le Guin, Robin Hobb, Diana Wynne Jones, Suzanne Collins.
E sobretudo vamos olhar para os livros do passado com senso crítico.

