Mrs. Covington’s é o nome de um pub velho e cansado que é comprado por um jovem que quer tentar um novo modelo de negócios. Jacob é um jovem de vinte e poucos anos que é filho de um homem rico. Jacob não concorda com o jeito mercenário do pai, e quer ter a chance de mostrar por pai que é possível viver a vida sendo amável e gentil, em vez de um malvado que só quer saber de lucro.
Jacob chega numa nova ilha, usando um nome novo, pra ver se consegue dar conta de ser adulto. Ele entra no Mrs. Covington’s e impulsivamente decide comprar o lugar. O dono entrega o pub junto com um papel antigo com uma caça ao tesouro.
Tem esse gênero novo que o povo tem chamado de “cozy fantasy”, que é pra ser uma história num mundo de fantasia com uma ideia de “aconchegante”. Teoricamente um livro “cozy” é pra ser “low-stakes” (algo que não é muito perigoso e que não demanda grandes aventuras para resolver), com temas como família escolhida, conflitos pequenos, cenários reconfortantes, e cenas de conversas agradáveis em vez de guerras épicas. Tudo isso em um ambiente de fantasia tradicional com dragões, elfos, orcs, magos, etc.
Mrs. Covington’s é um exemplar bem claro do que se espera de uma cozy fantasy. Jacob precisa dar um jeito de fazer o pub dar dinheiro. A capivara mascote do lugar está infeliz então eles decidem roubar um namorado pra ela. A caça ao tesouro inclui uma poesia que eles precisam trabalhar juntos para decifrar. A garçonete está de namorico com o entregador e Jacob quer muito que eles fiquem juntos. O maior proprietário da ilha também quer o tesouro, será que eles vão conseguir achar o local sem que o malvadão e seus capangas descubram?
Algumas coisas me incomodaram no livro. Jacob é um mala, com o maior coração do mundo, autoestima inexistente, uma ingenuidade irritante e incapaz de fazer decisões úteis. A única coisa de inteligente que ele faz é colocar os dois funcionários como sócios pros dois poderem resolver o pub. E, vários momentos o livro pára tudo o que está fazendo pra mostrar uns monólogos internos do Jacob que são desinteressantes e inúteis.
Outra coisa sem graça é a fantasia em si. O mundo tem magia, mas Jacob não sabe usar. A garçonete sabe, mas muito pouco porque ela é iniciante. A garçonete e mais alguns personagens são ciguapas, inspirados nos seres do folclore da República Dominicana. No livro, eles tem pele azul e usam tatuagens que dão poderes mágicos básicos de ilusão. Aí tem os orcs, que no livro são muito grandes e fortes. E faunos, que são metade de cima humano, metade de baixo bode, e no livro não parecem ter nada de mágico. Fora a mistureba, que me incomoda por questões pessoais, é tudo meio sem graça. Os conflitos são todos muito realistas (a fauna não tem dinheiro pra pagar o senhorio e pode perder o restaurante dela, Jacob não sabe se vai conseguir fazer o pub dar lucro, o dono da ilha quer expulsar todo mundo que não concorda com ele), e são resolvidos de forma simplista.
A última coisa que vou reclamar é a inserção de coisas modernas em um mundo claramente fantasioso de época “piratas do Caribe”. A tecnologia parece do século XVIII, certo? Incluindo lutas de espadas, navios singrando os mares, sociedades insulares. Daí parte do livro é Jacob e seus amigos inventando coisas “revolucionárias” que são da nossa realidade. Um pão assado feito de farinha com queijo ralado em cima colocado no forno pra derreter e cortado em pedaços na hora de servir? Revolucionário! Vamos chamar de “nacia” porque é o nome da cozinheira. Os frequentadores do bar escrevem o nome da música num papelzinho falando qual música querem cantar e a banda toca enquanto um cliente canta? Que incrível, como ninguém pensou nisso antes? Vamos chamar de “noite do VOCÊ CANTA” Eu entendo a ideia do livro, eu só achei sem graça mesmo.
A caça ao tesouro é divertida, e as capivaras são fofas. Mas junta o protagonista insosso, a resolução simplista, a falta de magia, e a vida real se intrometendo, ficou um livro que não foi pra mim.
Mrs. Covington’s (2023) de K.R.R. Lockhaven

