Belle | Cameron Dokey

Como fazer recontagem de A Bela e a Fera

Gente, vamos lá. Não é tão difícil assim.

Tem a moça bonita. Daí temos o cara tem forma de fera por causa de alguma maldição. Ela é obrigada a morar com ela num castelo mágico porque pai. E ela se apaixona pelo monstro mesmo ele sendo feio e peludo e o amor dela faz a maldição dele desfazer e ele vira um príncipe bonito (mas não se for a versão da Disney).

Pra escrever uma adaptação/reinvenção/recontagem de A Bela e a Fera, esses são elementos que precisam estar lá ou ao menos ser justificados. Se ela não tem pai, então por que foi morar com a Fera no castelo? Chamam ela de Belle porque ela é bonita? Ou ela é feia, ou ‘não como as outras garotas’? E daí então por que chamam ela de Bela?

Acima de tudo EXPLIQUEM A MALDIÇÃO. Por que que ele tem forma de bicho e mora num castelo mágico? A versão da Disney pode não ter sido das melhores, mas pelo menos foi explicada: afinal, quebrar a maldição e salvar a Fera de ficar feia pra sempre é meio que toda a história do conto. O romance entre os dois é o que leva à maldição ser quebrada.

No conto original, toda noite a Fera pede pra menina se casar com ele, e toda noite ela recusa. Até que ela pede pra ir embora, e ele deixa, porque se preocupa mais com ela do que com ele mesmo. Isso faz parte do romance.

Daí tem esse.

Robin McKinley investiu no romance e fez Beauty ficar bom por quase três quartos com isso – ela só escorregou na hora de explicar a maldição. Mas nessa adaptação Cameron Dokey esqueceu de DOIS elementos importantes: o romance E a maldição. Aí fica difícil, por mais que eu tenha gostado da protagonista e da família dela.

E outra. Que bom que a autora aparentemente cresceu lendo o livro da Robin McKinley (publicado em 1978). Mas teve horas que parecia que eu estava lendo Beauty – as mesmas coisas acontecendo. Eu fiquei tão confusa que até peguei Beauty pra comparar. Não foi só em detalhes do conto que eles são parecidos. Nos dois livros a Bela tem uma irmã mais velha que se apaixona por um marinheiro e quando ele não volta do mar daí depressão. E tanto em um livro como em outro a família perde tudo e tem que se mudar pra longe da cidade e do luxo.

A autora até tentou dar uma inovada com a história da árvore, mas não me convenceu. A menina passa o livro inteiro e só menciona que gosta de esculpir madeira UMA VEZ, e de repente toda a trama envolve esse detalhe – e ela não consegue esculpir o tal galho da árvore mágica mas não existe nenhuma explicação pra isso, e depois todo mundo esquece esse problema porque a Bela e a Fera se apaixonaram. O livro substituiu o pedido de casamento diário do conto por um pedido de ‘olhe nos meus olhos’ (e me lembrou do Pequeno Nicolau), algo que a Bela não conseguia fazer também sem motivo algum.

A primeira metade do livro é bonitinha, porque a protagonista e sua família são interessantes e têm personalidades distintas. Mas depois que o livro vira cópia de Robin McKinley a coisa perde a graça e nem um romance satisfatório tem pra salvar.

Perda de tempo.

Belle – A Retelling of Beauty and the Beast (2008) de Cameron Dokey. Série Once Upon a Time

Renata

Nas horas vagas eu jogo RPG e faço meus desenhos. Quando dá, eu leio. Se eu conseguir fazer pelo menos uma pessoa ficar feliz com os livros como eu fico já estou mais do que satisfeita com essa vida.

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