The Blue Sword | Robin McKinley

Grande exemplar do gênero de fantasia da década de 80, com uma ambientação fabulosa, personagens ótimos e uma trama de aventura envolvente. Enquanto os colonizadores que vivem no posto longínquo pouco se interessam pelas atividades dos nativos, uma ameaça maligna se reúne do outro lado das montanhas. A jornada de auto-descoberta fica por conta de Harry, uma moça pouco interessada nos afazeres tipicamente femininos que se vê tendo que escolher entre duas culturas. E acaba envolta numa guerra para salvar seu reino.

Eu nunca vou entender a Robin McKinley. Li dois livros dela bem mais ou menos, daí nem fui ler esse porque não me empolguei – li até a página 14 e desisti porque achei muito entediante: Harry é uma garota pouco convencional que vai viver num posto avançado do império depois da morte dos pais. Ela não é uma lady, apesar de ter sido criada como tal: ela sempre preferiu sair cavalgando no sol do que proteger sua pele alva, e seu irmão mais velho agora se preocupa se ela vai se adaptar à sociedade. Não que ela tenha muita sociedade para se adaptar: o posto do exército em que ela vai morar (como um casal mais velho, ele diplomata) não tem nada nem ninguém, e é só uma cidadezinha na beira do deserto e das montanhas que não fazem mais parte do reino. E aí eu parei porque se nada acontece, né. Qual a graça.

Depois eu vi na sinopse que ela ia ser raptada por um rei das tribos das montanhas, e bom. Aí resolvi voltar, porque sabem como eu fico com romances desse tipo. E olha, fica a lição de vida. Eu larguei o livro na página 14, com todo mundo tomando chá calmamente e Harry entediada até a medula. Na página 15 entra o pessoal da guarnição, super preocupado porque o tal rei feiticeiro resolveu aparecer do nada e ninguém sabe o que fazer com ele. Então, gente, se por acaso vocês estiverem muito entediadas com a leitura, pula umas páginas! Quem sabe a coisa muda drasticamente e o livro fica legal.

E esse ficou legal mesmo!

O rei, que é bonitão e se chama Corlath, é de fato um feiticeiro, mas não no sentido tradicional da palavra: ele de vez em quando é possuído por uma energia mágica que lhe dá poder, mas que também manda nele e ele não tem escolha senão obedecer. É essa energia mágica – que seu povo chama de kelar – que o empurra para raptar Harry. Ele obedece com relutância, porque sabe que isso pode gerar ainda mais animosidade entre seu povo e os colonizadores, povo de Harry (que não sabem que magia existe mas por outro lado andam de Maria-Fumaça e atiram com pólvora). Corlath tenta agir como se Harry fosse uma convidada de honra, e ela, sem escolha, acaba se entrosando com o povo nômade das montanhas. Corlath só percebe que pode haver um bom motivo para o rapto alguns dias depois, quando ele descobre que Harry também tem magia. E ele decide ir até o fim e inserir a moça totalmente na cultura do povo das montanhas: ela recebe um professor gente boa, aprende a cavalgar sem rédeas nem estribo, aprende a lutar, e mais toda a training-montage.

Só que tudo isso acontece sob a ameaça iminente de uma invasão do povo do norte – que tem um exército imenso de coisas que não são humanas. Corlath espera que a magia de Harry possa ajudar o povo das montanhas na guerra, já que os colonizadores não acreditam em “coisas que não são humanas”; não acreditam em magia; não acreditam que os nortistas sejam tantos e nem que eles consigam cruzar as montanhas; e acham que a guerra entre o povo do norte e o povo das montanhas é uma simples “briga entre tribos”. Irritadíssimo com essa atitude, Corlath decide que não vai avisar nenhum colonizador quando o ataque dos nortistas é iminente e aí Harry é obrigada a fazer escolhas que ela não sabe se serão acertadas. Ela se apaixona pela vida nas montanhas e não tem dúvida alguma de que ela prefere ficar ali em vez de voltar à vida entediante de moça-solteira-em-ambiente-vitoriano, mas como deixar os nortistas passarem pelas montanhas e destruírem toda a cidade dos colonizadores?

Harry é uma boa personagem, Corlath também não faz feio, os coadjuvantes são especialmente excelentes – com destaque para a gata selvagem e o cavalo puro-sangue que acompanham Harry por todo lado – e a história tem um ritmo legal que manteve meu interesse após as complicadas primeiras 14 páginas. O livro vale muito a pena – fantasia da melhor qualidade, com aquela pegada anos 80 que é tão legal. E apesar do final dos outros livros da autora ter me desapontado, o final desse não desaponta!

PS para descomplicar a sequência dos livros: A série Damar é complicadinha mas nem tanto: esse é o primeiro livro publicado. Em 84 ela publicou The Hero and the Crown, que se passa antes da história desse livro. E na década de 90 ela publicou mais dois livros que acontecem no mesmo mundo mas não têm muita relação com o povo dos dois primeiros livros. Então dá pra dizer que o livro é um standalone e pode ler sem se preocupar com várias sequências.

The Blue Sword (1982) de Robin McKinley. 

Renata

Nas horas vagas eu jogo RPG e faço meus desenhos. Quando dá, eu leio. Se eu conseguir fazer pelo menos uma pessoa ficar feliz com os livros como eu fico já estou mais do que satisfeita com essa vida.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *