No convento de Santa Frideswide, na Inglaterra de 1491, a rica e intrometida Lady Ermentrude chega arrasando as terras por onde passa: com dezenas de criados, cavalos, demandas e até mesmo um macaco de estimação, ela testa a paciência de todas as freiras. A mais afetada é a jovem noviça Thomasine, sobrinha-neta da impressionante nobre, que com apenas dezessete anos ainda tem muito medo de tudo.
Após uma breve conversa com a Madre Superiora, Lady Ermentrude sai dando ordens que vai passar o dia fora, pega duas criadas e sai galopando. No dia seguinte, ela volta, aos berros, parecendo muito alterada, e é colocada na hospedaria do convento para se recuperar. Martha Hayward, uma das ajudantes de cozinha que era antiga criada de Lady Ermentrude, se oferece para ajudar a cuidar da senhora, e cai morta do mais absoluto nada.
Algumas horas depois, Lady Ermentrude tem mais um ataque de histeria e morre também.
O investigador real quer que tudo seja considerado uma indigestão misturada com velhice somada ao consumo excessivo de álcool, mas tanto a chefe da enfermaria, Dame Clare, quanto a responsável pela hospedaria, Dame Frevisse, se recusam a se calar: Martha Hayward e Lady Ermentrude foram vítimas de envenenamento. A principal suspeita, no entanto, é a jovem franzina e assustada noviça Thomasine: antes de morrer, Lady Ermentrude gritou aos quatro ventos que obrigaria o convento a ‘libertar’ Thomasine, e que forçaria a garota a se casar com um ‘varão viril’, algo que Thomasine tinha pavor que acontecesse.
Comparações com Cadfael
As minhas questões com esse livro foram várias. Primeiramente, eu tinha acabado de ler um romance policial moderno (anos 2010s) horroroso, então esse forçosamente foi melhor, só que ainda assim o mistério deixou a desejar. Segundamente, li várias vezes todos os livros do Irmão Cadfael, então impossível não comparar. E terceiramente, o tipo de ponto de vista me irritou.
Começando pelo ponto de vista, o livro alterna entre a noviça Thomasine – jovem, ingênua, extremamente crente, medrosa, incapaz de cometer qualquer ato minimamente desviado do que ela acredita ser o certo sem ter que passar a noite de joelhos rezando – e Dame Frevisse – eficiente, de meia idade, decidida, organizada, inteligente, extremamente ciente do seu papel dentro do convento e do mundo. Considerando que Thomasine é uma chatassa, eu não fazia questão de ter que ver a vida pelo olhar dela. Por outro lado, apesar de simpatizar muito com a Dame Frevisse, não ficamos sabendo nada dela, e é uma super mulher eficiente e sensata mas não parece uma pessoa real.
A investigação é basicamente Dame Frevisse e Dame Clare perguntando as mesmas coisas pras mesmas pessoas enquanto o filho de Lady Ermentrude é um nojento completo e o investigador do rei incompetente e burro. A tentativa de envolver a rainha-mãe na trama de fato me lembrou o pano de fundo político dos livros do Cadfael, e a solução do caso é até que organizada. Infelizmente, nada faz o menor sentido.
Spoilers abaixo.
O rolê é que a irmã mais velha de Thomasine, Lady Isobel, havia se prometido em casamento pra um doidinho lá, que Isobel achava que tinha morrido na guerra. Daí ela casou com Sir John, protegido da Lady Ermentrude. Só que na conversa rápida que Lady Ermentrude teve com a Madre Superiora, ela descobre que o tal namoradinho não tinha morrido coisa nenhuma (tinha, mas alguns anos depois), e que, como a igreja fala que “se prometer em casamento” é a mesma coisa que casar, Isobel tecnicamente não estava solteira quando casou com Sir John e os dois tinham cometido vários pecados. Por algum motivo que não foi explicado, a forma de Lady Ermentrude resolver o problema foi correr até o casal de errados e falar que ia obrigar os dois a anularem o casamento. Desesperada de perder o dinheiro da herança dos filhos dela, Lady Isobel envenenou o vinho da Lady Ermentrude (que não fez tanto efeito porque era um veneno fraco); depois envenenou outra comida que quem comeu foi a infeliz da criada; e por fim envenenou mais uma comida que Lady Ermentrude comeu e daí finalmente morreu.
De acordo com o livro, Lady Isobel e Sir John poderiam ter pago uma grana pra regularizar o casamento deles, mas eles estavam economizando pra comprar um título de nobreza pro filho deles então não teria dinheiro pros dois. Solução: envenenar a véia. A sub-trama política é que a rainha-mãe tinha se casado com um outro maluco lá, e Lady Ermentrude tinha feito insinuações sobre isso – mas essa parte é rapidamente eliminada pela solução verdadeira, nem dá tempo de se confundir.
Enquanto isso o filho da Lady Ermentrude já decidiu que a assassina foi a coitada da Thomasine. A forma genial dele resolver isso é simplesmente invadir a igreja pra pegar a garota. Felizmente as freiras cantam e Thomasine é iluminada pelo sol, o que faz com que os guardas decidam não colaborar. Não sei se um nobre qualificado seria capaz de invadir um convento na raça, mas também não entendo muito bem do fim da Idade Média. Talvez seja isso que a autora queira demonstrar, que o povo já tava cansado da religião? De qualquer forma, não me convenceu.
Conclusão
O primeiro livro do irmão Cadfael tem personagens incríveis, uma trama perfeita, um mistério resolvido de forma absolutamente magistral, elementos religiosos que parecem bastante plausíveis, e um protagonista extremamente bem desenhado. No entanto, esse primeiro livro da Irmã Frevisse é uma leitura agradável mas com personagens rasos e uma resolução insatisfatória. Tem grandes chances de eu ir atrás dos outros da série; de repente ela melhora aos poucos.
The Novice’s Tale (1992) de Margaret Frazer | Sister Frevisse #1