Eu queria só lamentar pra todo o sempre que esse lixo tenha existido. Claro que muitos livros são adaptados pro cinema e quase nenhum autor tem liberdade pra auxiliar na produção. Isso faz com que os filmes sejam cortados e mudados. Mas depois de termos visto o primor de Peter Jackson com O Senhor dos Anéis, e o cuidado com a produção dos quatro Jogos Vorazes, fica claro que é possível fazer adaptações boas! E Terramar merecia algo minimamente digno.
A questão com essa incapacidade humana que é ‘O Poder das Trevas’ é que é tudo muito ruim! Não é só questão de mudar TOTALMENTE tudo o que estava no livro, e quando eu digo tudo é TUDO. É também questão de que a série é péssima. Isso não devia ter sido pensado, escrito, produzido nem exibido! Eu fico realmente na dúvida achando que os produtores e roteiristas e diretores tinham algo pessoal contra a autora. Não é possível!
O filme começa com Ged na sua ilha natal, com uma minazinha que é sua namorada, sonhando em ser um mago, reclamando do pai que obriga ele a ser ferreiro. Quem faz ele é Shawn Ashmore que só foi relevante sendo o homem de gelo do X-Men pelo motivo simples de que ele é um péssimo ator. Daí aparece o Danny Glover meio do nada, como sendo o mestre mago de Ged, Ogion, e Ged lê um livro proibido em voz alta, e Ogion manda ele pra Roke, na escola dos magos. Até aí o Ged é só um moleque mala mimado que se acha e não faz nada de útil além de uma neblina idiota. É importante lembrar que esse lixo foi feito depois do Senhor dos Anéis. Não tem desculpa nenhuma pra cena da neblina ser tão estúpida.
Na escola, Ged fica inimigo do branco rico de sotaque britânico Jasper e amigo de um gordinho simpático alvo de todas as piadas gordofóbicas Vetch. Ged continua sendo um idiota, fazendo perguntas imbecis que o roteiro coloca pra tentar dar um pouco mais de substância à magia do filme (ou, como eles falam, “wIzARd PoWEr“). Ged cai na provocação do Jasper, traz um espírito de uma princesa branca e liberta um monstro que é o pior CG da história. O bichinho pula na cara de Ged e dá um arranhãozinho de nada na bochecha dele antes de sumir.
Enquanto isso, em Atuan, num convento onde as mocinhas protegem as chaves do labirinto onde todos os ouros monstrengos são mantidos, a sacerdotisa Thar está doente e tem que escolher sua sucessora. Tenar, a Kristin Kreuk se achando a maior atriz da geração, tem a melhor nota na prova de sacerdotisa e é escolhida em vez de Kossil; Kossil sendo a segunda no comando que está secretamente dando pro rei malvado. Apesar de Tenar ser a que fez o melhor TCC da universidade de sacerdotisas, ela acha que não é boa o bastante para ser reitora. Enquanto isso Kossil escolhe a menina mais burra da face da terra pra envenenar o chá da Thar falando que é remédio. O plano de Kossil e do rei é libertar os monstros e aprender a imortalidade com eles, então Kossil precisa: enfraquecer Thar pra fazer ela escolher uma sucessora e se certificar que Thar escolha Kossil como sucessora pra daí contar pra Kossil o “encantamento de soltar os monstros”. Tá vendo, a história sozinha não se sustenta, é só ideia lixo.
Durante todo esse tempo, Ged e Tenar sonham um com o outro e o rei malvado fica andando em vários navios de figurino de papelão dizendo que precisa encontrar o mago da profecia pra poder matar o mago. O tempo todo os personagens estão mencionando nomes relevantes do cenário mas de forma completamente inconsistente, numa hora eles falam de Roke como sendo algo que todo mundo conhece, depois falam de Havnor e o rei malvado não sabe do que se trata, a magia nunca é definida e os magos são completos inúteis.
Daí eles vão até uma ilha com um dragão totalmente aleatório, inexplicável e burro. O tipo de piada genial: Se eles souberem o nome verdadeiro do dragão ele vai responder três perguntas! Ged chuta o nome e acerta. O dragão diz “você tem duas perguntas”, e Ged “mas não era três” e o dragão ri e fala “justamente, agora que você me perguntou essa, você tem só duas”. O dragão responde umas quatro perguntas e fala que Ged precisa ir até Atuan achar “a runa da paz”, solta uma charada infantil e vai embora. Vetch e Ged passam por Roke que foi dominada pelo rei malvado, o arquimago que jamais morreu explica que o amuleto quebrado que a “tia” do Ged deu pra ele na verdade é metade da runa da paz! Oh!! E agora ele precisa ir pra Atuan que é muito perigoso pra achar a outra metade e juntar a runa. Porque sim. Chegam até Atuan, e Ged é preso imediatamente porque ele é um mago inútil. Ele encontra Tenar e tem aquele momento “eu sempre sonhei com você”. Eles vão até o centro do labirinto e soltam os bichos e o rei morre e eles juntam o “wizard power” de Ged com o poder da fé de Tenar, refazem o amuleto, sai uma luz pelo mundo e fim da história. E eles se beijam e o Danny Glover fala que o que aconteceu depois “é outra história”.
O filme é só um amontoado de todos os clichês do planeta, com atuações pífias, diálogos de passar vergonha, efeitos inaceitáveis. Isabella Rosselini pelo amor de tudo o que é mais sagrado o que você fez pra merecer isso. Danny Glover só podia estar sendo ameaçado por agiotas. Esse lixo não serve pra absolutamente nada e quem não leu os livros e diz que “ah mas até que dá pra se divertir” não tem a menor habilidade de interagir com entretenimento. O gordo é alvo de piada, a gostosa malvada dá muito enquanto a bonitinha boazinha é virginal, a idosa é burra e passa a história sendo vítima de envenenamento sem conseguir decidir nada além de “prendam eles e depois eu penso”, o nobre inglês branco é vilanesco, o rei malvado quer matar todo mundo e ficar imortal. As pinceladas que eles dão sobre nome verdadeiro, magia do equilíbrio, união de luz e sombra ficam só perdidos entre tanto clichê lixoso.
Se eu for começar a falar as diferenças entre livros e essa calamidade, não acabo nunca mais, mas pra constar vou falar pelo menos algumas, ou as mais revoltantes.
Todos em Terramar tem um vulgo que é o nome pelo qual são conhecidos. E todos em Terramar tem um nome secreto que só é contado para pessoas muito próximas porque esse nome tem poder. Gavião é o nome pelo qual o protagonista é conhecido justamente por ser um mago que se diverte se transformando em pássaro. Ged é o nome que Ogion dá pra ele na sua cerimônia de passagem pra vida adulta. E no filme eles trocam e Ged é o vulgo dele e Gavião é o nome verdadeiro. Parece mesmo que foi só pra irritar.
Ged e Tenar NUNCA tiveram um envolvimento romântico na época em que se conheceram, em Atuan. Tenar NUNCA foi parte de um “convento” cheio de menininhas rezando pela luz, como é mostrado no filme. Ela era sacerdotisa de um templo decadente e sombrio que louvava deuses antigos. Ela era a sacerdotisa mais importante e única, nunca teve ninguém competindo com ela. O “domínio” dela era uma caverna onde luz era proibida e um labirinto de onde não se conseguia sair sem as instruções. Kossil era uma sacerdotisa de outro templo que era uma chata futriqueira descrente que atrapalhava a vida da Tenar. Tenar que inclusive teve o nome retirado dela durante o livro todo e só foi devolvido num momento importantíssimo.
Agora ao principal motivo de reclamação da própria autora: no livro, os personagens não são brancos. Ged tem pele marrom-avermelhada. Ogion é preto retinto. Vetch marrom escuro. Todos no arquipélago tem pele escura, vermelha, cor de cobre, amadeirado escuro. O único lugar onde as pessoas são brancas é no império Kargad, onde eles tem “pele branca e cabelo amarelo”. Eles também são teocratas fanáticos escravistas que não acreditam em magia. Interessante, não?
E aí os produtores dessa mini-série tenebrosa decidiram colocar Ged não só branco, mas LOIRO. E o único personagem negro do filme é o ancião respeitável aka negro mágico. E quando a autora reclamou, o pessoal da produção disse que “o público da tv é outro, ninguém vai nem reparar”. O nível de racismo é sem igual. Aliás, a autora foi TÃO sacaneada na hora de comprarem os direitos para a adaptação que ela ficou traumatizada pra sempre. Nunca mais quis que adaptassem nada. Os caras mentiram pra ela na maior, dizendo que a Philippa Boyens estava envolvida no projeto só pra autora ser convencida a assinar o contrato (e depois a Philippa nem tava); e o diretor dando entrevista que a autora tinha aprovado tudo mas ela nunca tinha sido consultada.
Pra continuar. O rei malvado não existe no livro. Os monstrengos não são monstrengos, são entidades de pura sombra que querem destruir a vida e a luz. Eles não tem forma e não tem nome. Em alguns lugares de Terramar, os homens idolatram esses seres, mas eles não são deuses e não atendem preces. Ged realmente ‘desperta’ um ser maligno, mas este ser nada mais é do que a representação negativa do próprio Ged. Eu me recuso a falar sobre o dragão. No fim, quando Ged fica frente a frente com essa sombra, o nome que ele pronuncia é o dele mesmo, e a sombra se une a ele, fazendo dele um ser completo. No filme, a sombra vira um Voldemort imbecil falando de poder e vida eterna e se transforma em quem quiser, inclusive no pai do Ged choramingando “por que você não gosta de mim”. No segundo volume dos livros, Ged vai até Atuan para buscar a outra metade do amuleto de um mago ancestral, que se quebrou durante uma batalha. Metade do amuleto ficou no tesouro das Tumbas de Atuan. A outra metade Ged recebeu de uma idosa abandonada quando criança numa ilha deserta pelos familiares de família real Kargad. No filme, a metade de Atuan estava o tempo todo na chave que a Tenar carregava pra todo lado.
É tudo alterado pra ficar mais idiota, e o resultado é um roteiro sem pé nem cabeça, mal alinhado, sem graça, arrastado e chato. É a maior pena do mundo que uma obra tão sensacional e única como os livros tenham virado um aglomerado genérico e racista.
The Legend of Earthsea (2004) Mini-série de 2 episódios; de Robert Lieberman, com Shawn Ashmore, Kristin Kreuk, Isabella Rosselini, Danny Glover


É a segunda vez que tento colocar esse comentário aqui! MAS EU NÃO DESISTIREI!Então, achei muito absurdo trocar a COR do personagem, não nos resta nada pra pensar além do fato de que os produtores pensaram que um filme com um herói braco ia dar mais dinheiro, vc não acha?Puta absurdo a lá regina de IPT, não é mesmo?Por esse post, eu fiquei com muita vontade de ler o livro (que se vc tiver eu quero emprestado) e passar longe dessa adaptação!Te adoro rê, baixa as musicas do meu blog, vc vai gostar!