Leitura 2012
Cimorene é uma princesa não-convencional: ela não quer saber de vestidos, bailes e joias. Ela é super interessada em lutas de espadas, magia e outras coisas não apropriadas. Quando seus pais, cansados de toda a sua rebeldia, resolvem forçá-la a se casar com o lindíssimo príncipe do reino vizinho, ela se desespera e resolve fugir.
Ao seguir o conselho de um sapo falante, ela chega até uma caverna cheia de dragões. Felizmente, um deles aceita ficar com ela – afinal, para os dragões, dá muito status ter uma princesa.
O dragão de Cimorene é uma simpática e inteligente fêmea chamada Kazul e a vida da princesa de repente fica bem mais empolgante, mesmo quando um príncipe boboca insiste em tentar resgatá-la. Cimorene faz novos amigos, como uma princesa raptada por outro dragão, um príncipe transformado em pedra, e uma bruxa que tem muitos gatos. Ela também faz novos inimigos, pois os magos insistem em querer interferir nos assuntos dos dragões e Cimorene acaba no meio da confusão.
O maior problema desse livro é que ele é curto. Cimorene não é a típica “princesa ao contrário” dos contos de fadas modernos, que quer ser independente mas se joga nos braços do primeiro príncipe que aparece. Ela é inteligente, engraçada e sabe o que quer, e não vai ficar sendo frágil esperando ser salva.
Os diálogos do livro são excelentes, com até mesmo os personagens mais secundários ganhando frases memoráveis. A história é interessante e me deixou grudada nas páginas. E tem a questão dos capítulos: cada capítulo tem aquele “em que a princesa Cimorene foge e faz uma descoberta” que na verdade só deixa o leitor mais curioso.
Eu queria tanto que existissem mais livros assim! Com personagens reais e que ao mesmo tempo cabem dentro de um mundo secundário inteligente; com protagonistas mulheres que são “no-nonsense” e que estão cansadas dos estereótipos que deveríamos seguir para sermos felizes.
E não é exatamente um spoiler, mas é o final do livro, então fica só pra quem quiser ler: No final, quando a princesa amiga de Cimorene vai embora com seu príncipe, Cimorene grita pra ela: “espero que você viva feliz pra sempre!” e a amiga grita de volta: “espero que você também!” E Cimorene pensa que não tem certeza se vai mesmo viver feliz pra sempre, mas que certamente espera se divertir bastante.
Como não amar?
Um livro inteligente, divertido e ágil; uma pequena obra prima.
Releitura 2021
Com uma princesa de personalidade forte, dragões falantes e magos intrometidos, Dealing with Dragons é um livro infantil de fantasia encantador, engraçado e muito fácil de ler.
No mundo da história, a melhor forma de uma princesa conseguir se casar é sendo raptada por um dragão, levada por um gigante, ou amaldiçoada para ficar numa torre: então um cavaleiro andante, príncipe encantado ou filho mais novo de um lenhador podem resgatá-la e casar com ela. Para isso, as princesas recebem educação adequada: etiqueta, bordado, dança e como se comportar quando estiver perdida na Floresta Encantada e encontrar algum jovem promissor.
Mas a princesa Cimorene não quer saber de nada disso e prefere estudar esgrima, magia e latim, e até obriga o cozinheiro do palácio a ensiná-la a cozinhar. O rei e a rainha ficam exasperados de ter que impedir as aulas de ocorrerem toda hora, e quando Cimorene faz dezesseis anos eles decidem que o jeito é casá-la com o príncipe do reino vizinho, o belo e corajoso Therandil. Cimorene prefere qualquer coisa a isso, e decide fugir, usando um feitiço de invisibilidade que ela tinha obrigado o mago da corte a ensinar pra ela. Seguindo as orientações de um sapo falante, Cimorene vai parar nas cavernas dos dragões, e acaba se oferecendo para ser a princesa de um deles.
Kazul é um dragão fêmea muito sensata que por acaso está sem princesa no momento, além de gostar muito de jubileu de cerejas, a sobremesa que é especialidade de Cimorene, e fica decidido então que Cimorene será a princesa de Kazul.
O trabalho é muito interessante, pois além de cozinhar para Kazul e seus convidados, Cimorene também precisa organizar a biblioteca da dragão e limpar as salas de tesouros. Seu trabalho é constantemente interrompido, no entanto, pois logo Therandil e outros cavaleiros e príncipes aparecem para tentar resgatá-la, e Cimorene fica exasperada de ter que explicar que gosta dali, quer ser princesa de dragão e não vai ser resgatada.
Ela logo faz amizade com Alianora, uma outra princesa de dragão que não é obcecada com vestidos e príncipes como as outras, e também com a bruxa Morwen, que mora na Floresta Encantada, tem dezenas de gatos, faz sua própria cidra e empresta panelas de crepe para Cimorene quando necessário.
Quando Cimorene descobre uma trama dos magos para matar o rei dos dragões, ela vai precisar de toda sua astúcia para resolver a situação, além de contar com a ajuda dos novos amigos, alguns feitiços de resistência a fogo, penas mágicas de teleporte e a descoberta essencial de Alianora contra os magos: água com sabão e um toque de limão.
Eu me apaixonei por Cimorene, uma jovem inteligente e ágil que não tem papas na língua e se recusa a fazer o que esperam da sua posição. O livro mostra o outro lado da moeda com Alianora, uma moça meiga, que está sempre com medo de ser queimada por seu dragão mas não hesita em ajudar sua amiga quando é pedido, e sonha com o dia em que será salva por um príncipe. Morwen também é uma personagem maravilhosa, com sua casinha na floresta que tem uma porta que abre para onde ela quiser e os gatos independentes que não tem paciência com ninguém.
Os dragões tem sua sociedade e sua própria forma de pensar o mundo, e a narrativa tem pontos muito revolucionários quando descreve uma reunião de dragões com alguns dragões fêmeas, outros dragões machos, e um dragão que ainda não decidiu o que vai ser; ou quando falam sobre o rei dos dragões, que pode ser macho ou fêmea (segundo Kazul, rainha dos dragões é um trabalho entediante que faz séculos que ninguém quer fazer). A autora também claramente tem intimidade com gatos, como pode ser atestado pela seguinte passagem (tradução livre minha):
Havia vários gatos de diversas cores e tamanhos sentados na grade da varanda ou estendidos ao sol. Quando Cimorene desmontou, Kazul disse para um deles:
– Você poderia por gentileza dizer para Morwen que estou aqui e gostaria de falar com ela?
O gato, um enorme cinzento malhado, piscou seus olhos amarelos para Kazul. Ele então pulou da grade da varanda e caminhou lentamente para dentro da casa, seu rabo para cima como dizendo “perceba que estou fazendo isso como um favor especial, e não se esqueça disso.”
– Ele não parece muito impressionado, – Cimorene comentou, com algum divertimento.
– E porque ele deveria estar? – disse Kazul.
– Bem, você é um dragão. – respondeu Cimorene, um pouco surpresa.
– Que diferença isso faz para um gato?
Felizmente Cimorene não teve que achar uma resposta, pois naquele momento Morwen apareceu na porta.
Os diálogos são maravilhosos, com mesmo personagens secundários ganhando falas memoráveis, e cada capítulo tem títulos como “aquele em que a princesa Cimorene foge e faz uma descoberta” que na verdade só deixa o leitor mais curioso. É muito refrescante ler uma história para crianças que não subestima o leitor, apresenta personagens inteligentes e únicos e traz uma protagonista feminina independente e corajosa.
As referências a elementos de contos de fadas clássicos, como a princesa raptada, o terceiro filho que consegue ser bem sucedido onde os outros falharam, profecias e que tais, são feitos de forma esparsa para deixar o mundo do livro suficientemente ancorado na fantasia, mas ao mesmo tempo os personagens são bem pensados e interessantes. O fato do livro conter pouquíssimas cenas de violência (as poucas que ocorrem são fora de cena e nada horroroso é descrito) e romances fofos sem nada além de segurar na mão dela, o livro pode ser recomendado para leitores a partir dos 9 anos.
Esse é o primeiro de uma série de quatro livros que segue as aventuras de Cimorene no mundo da Floresta Encantada. Os outros volumes são Searching for Dragons, Calling on Dragons e Talking to Dragons.
Dealing With Dragons (1990) de Patricia C. Wrede (EUA)
Crônicas da Floresta Encantada Livro 1


Caramba, fiquei encantada! Eu quero! Vou certamente colocar na minha lista. Pergunta rápida: você leu em inglês ou português? Tem alguns livros que prefiro comprar em português para emprestar para amigos que não lêem em inglês, mas que sei que serão boas escolhas para comentar a história comigo depois 😉
Oi, Lulu, Eu li o livro em inglês, e pelo que eu vi não existe tradução. Mas dá pra importar pela Livraria Cultura, se você tiver paciência pra esperar chegar… e não sai caro.Eu sei como você se sente com seus amigos, tenho o mesmo problema… 🙁 Beijos e obrigada pelo comentário!
Nossa, eu queria muito ler esse livro depois que li sua resenha, mas não achei em português e pra ler em inglês é mais complicado pra mim ): Quem sabe não traduzam ele e eu possa ler né rsÓtima resenha!heym0on.blogspot.com.br/