Adaptação | Orgulho e Preconceito

São tantas e tantas adaptações dessa história infinitamente maravilhosa que é difícil sabermos como começar. Então vamos por partes porque a idéia é longa: quero falar de todas as adaptações que eu assisti. E para ficar mais claro, acho importante dividirmos as questões que de maior relevância numa adaptação.

1: a história vai seguir a do livro ou vai inventar moda?
2: os atores são bem colocados, têm a mesma idade dos personagens?
3: os personagens em si são bem retratados e fazem jus ao livro?
4: as frases célebres são ditas na tela ou não?
5: dá pra assistir sem ter lido o livro, é um entretenimento que pode ser feito sozinho?

A série de 1980

Comecemos em ordem cronológica. A adaptação mais antiga que eu assisti foi essa série de 1980, produzida pela BBC. A história segue a do livro sem problemas, até com exageros de personagens falando em voice over ou falando em voz alta momentos de descrição do livro que poderiam perfeitamente ter sido só filmados. Pontos 1 e 4 estão ok. Eu gostei dos atores, especialmente da Lizzie e da Lady Catherine, mas Jane não é mais bonita que Lizzie e as outras três irmãs são tias de meia idade. Ponto 2 mais ou menos então, e ponto 3 também mais ou menos. E por fim o ponto 5 fica muito aquém; não dá pra assistir essa história sem o livro, só os fãs hardcore que hoje em dia vão atrás disso; a série foi ultrapassada absurdamente pela versão de 1995 e como entretenimento separado não tem a menor graça: trilha sonora exagerada, os voice over tudo errado, e uma interpretação séria demais.

A série de 1995

Uma nova tentativa da BBC, essa mini-série de 6 episódios é considerada pela maioria dos fãs como sendo a adaptação definitiva do romance. E não dá pra discordar. Por mais que existam uma  lista enorme de outras opções, se você quer ter a melhor transposição para a tela do livro, essa é a melhor escolha. Com duas exceções pouco relevantes no elenco, que é o fato de que Jane não é mais bonita que Lizzie e a Lydia parece ter trinta anos, o restante da história é bastante leal ao livro, os personagens têm o mesmo charme, e o ritmo consegue prender o espectador mesmo com tanto material filmado. Impossível não se encantar com o romance, especialmente pelo Mr. Darcy mais favorito entre todos os favoritos, com direito a melhor cena de objetificação de homem já produzida. Ponto 2 fica mais ou menos, e 1, 2 e 4 estão bem ótimos. Sobre o ponto 5, não sei se quem nunca leu o livro vai se interessar pela mini-série, já que são seis horas pra assistir, mas para os que gostaram da história e vieram do filme de 2005, por exemplo, pode ser uma boa pedida.

O filme de 2005

Sem dúvida a versão mais famosa do livro, esse filme é queridinho de muita gente que nem chegou perto da palavra escrita, e é disparado o melhor entretenimento solo, tirando 10 no ponto 5. Teve inclusive muita gente que chegou ao livro e às outras adaptações através dessa produção, que se esmerou no que pôde, considerando a tarefa hercúlea de resumir um romance inconfundível desse num filme de duas horas. O elenco está perfeito e finalmente temos uma Jane mais bonita e irmãs da idade certa. Algumas coisas foram cortadas pela falta de tempo, como grande parte da participação de Wickham e uma irmã inteira do Bingley, mas no fim das contas temos uma versão que serve. Ponto 2 e 3 o filme vai bem, ponto 1 passa e 4 ficam um pouco abaixo justamente pela rapidez necessária já citada. De qualquer forma é um filme lindo lindo, com figurinos maravilhosos, música impecável, cenário incrível. Se é pra se ter uma adaptação só pra escolher, vou ter que escolher essa porque é a mais acessível com toda certeza.

Noiva e preconceito

E se Lizzie Bennet fosse uma moça indiana hoje em dia e Darcy fosse um americano esnobe que quer abrir um hotel perto da cidade onde ela mora? Além disso tem Wickham como um mochileiro de sotaque australiano e Collins como um indiano que mudou para os Estados Unidos e por isso se acha a melhor pessoa. E se todo mundo cantasse e dançasse no melhor estilo de Bollywood? Pois então aí você tem noiva e preconceito. É uma boa adaptação? Não sei. Os elementos estão todos lá, a Lalita (=Lizzie) é mais bonita que a irmã conforme manda a tradição das adaptações, a idéia da mãe doida pra casar as filhas combinou com a mãe indiana, Wickham ganhou um ar bem mais sinistro. Os números musicais são ok, bem bollywood mesmo, e agrada quem gosta e afasta quem não gosta como todos os musicais. Meu problema é com as atuações. Com exceção de mãe/pai/Lalita, e os irmãos Bingley que mal aparecem, o restante do elenco é tão ruim – especialmente ‘Georgie Darcy’ – que a história perde qualquer drama. O mais afetado é Darcy, que deveria ter uma química inigualável com Lalita e só consegue repetir as frases mal decoradas com cara de nada. O ponto 1, portanto, fica até que ok considerando a mudança de ambientação. Apesar de ruins, os atores são bem colocados e têm a mesma idade dos personagens, e afora as atuações, os personagens são parecidos com os do livro. O roteiro faz essa parte pelo ponto 2 e 3. As frases célebres são deixadas de lado, claro, então nem tem ponto 4. E o ponto 5 fica naquelas, né. Se você é a doida do orgulho e preconceito, não vai poder perder esse filme. Se você quer uma comédia de Bollywood, tem uma infinidade de outras opções melhores por aí.

The Lizzie Bennet Diaries

Uma web-série com 100 episódios de 5 minutos cada, essa adaptação pareceu inusitada mas fez um enorme sucesso. Lizzie Bennet é uma estudante de comunicação, que começa a fazer esses ‘diários filmados’ com sua melhor amiga Charlotte Lu como forma de trabalho de faculdade. A mãe de Lizzie tem três filhas, Jane, Lizzie e Lydia, e é obcecada com o casamento delas. Muitos personagens não aparecem em cena, e sim são interpretados por Lizzie usando props como um chapéu pra mãe dela, um cachorro de pelúcia para Lady Catherine (que é a dona de uma mega empresa de comunicação). A criatividade da adaptação é uma delícia de ver, e o formato de web série funcionou muito bem. A reimaginação das questões chave do livro é muito bem feita, e é a melhor dinâmica Lizzie-Wickam-Lydia de todas as adaptações/versões, mesmo que o conflito Lizzie-Darcy e Jane-Bingley deixe um pouco a desejar. Como é uma versão para o século XXI da hisória clássica, o ponto 1 fica mais ou menos: a série fala de todos os pontos do livro, mas de uma forma adaptada. Ponto 2 e 3 são ótimos considerando tudo. Ponto 4: sim! As frases aparecem! E ponto 5, sim, se você conseguir se acostumar com o formato dos episódios curtinhos, dá pra curtir o entretenimento mesmo sem ter o material de base.

Outros

Adaptações/versões que vale a pena mencionar:

Austenland, que mostra uma moça participando de um parque temático de Jane Austen – livro fofo, filme bonitinho, ótimo para os fãs. Lost in Austen, com uma menina que troca de lugar com Lizzie e vai parar dentro do livro – com momentos polêmicos e reinventando várias cenas chave, pode causar reações adversas. A adaptação de 1940 com ninguém mais ninguém menos que Laurence Olivier como Mr. Darcy – muito engraçado ver um filme de época na época dos anos 40, com aquele transatlantic accent tão característico e as roupas completamente aleatórias. Pride and Prejudice and Zombies – o livro é bem legal e não se leva a sério em momento algum, segue a história bonitinha só que zumbis, e o filme tem o pior Darcy de todos e além disso muda a história pra algo apocalíptico, fica bizarro. Todo mundo fala que Diário de Bridget Jones é baseado em Orgulho e Preconceito, mas tá tão longe da história original que só o nome do Darcy vale ser mencionado.

Renata

Nas horas vagas eu jogo RPG e faço meus desenhos. Quando dá, eu leio. Se eu conseguir fazer pelo menos uma pessoa ficar feliz com os livros como eu fico já estou mais do que satisfeita com essa vida.

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