Adaptação | Miss Fisher

Phryne Fisher é uma detetive particular na Melbourne dos anos 20. Os livros ganharam uma série australiana com três temporadas e mais um filme alguns anos depois.

Eu comecei a ler esses livros maravilhosos porque vi a série na Netflix. Já foram mais de vinte livros e todas as temporadas e o filme (tenebroso).  E quero falar do problema que tive com as adaptações que fizeram pra TV. Eu sou daquelas chatas que fica procurando falas do livro no filme (já fiz vários posts reclamando de adaptações de livros queridos para o cinema, me deixa); no caso da série de TV alguns episódios foram tão doídos que resolvi ver primeiro pra ler depois. Tem funcionado. Os episódios não foram feitos na mesma ordem de publicação dos livros, e alguns livros são inclusive pulados, então teve história que eu li e não assisti e história que eu assisti e não li – e que eu li primeiro e assisti depois, e vice-versa. A minha recomendação, portanto, é assistir primeiro e ler depois. É muito mais fácil gostar do Charlie na TV em The Green Mill Murder e depois ler sobre o caso do que se desapontar com o péssimo tratamento que o irmão dele teve quando fizeram a adaptação.

De forma geral, gostei muito da versão para a TV: os atores são o máximo, os crimes são bem trabalhados, o figurino é excelente e a música dá bem o clima. Essie Davies é uma Phryne incrível e a química dela com Nathan Page (Detetive Inspetor Robinson) – que não existe no livro – deu a clichezada do ‘will they – won’t they‘ que acho que sempre ajuda em séries.

Mas o que mais senti falta na adaptação foram os jovenos da Phryne. Aparentemente em 2015 temos ainda muitos expectadores pudicos, e sequer sugerir que uma mulher solteira tenha relações com vários caras é demais para a nossa televisão retrógrada. O resultado é que ela troca olhares e flerta com vários moços, mas chega aos finalmente com menos da metade dos que ela aproveitou nos livros.

Quer ver?

No episódio 1 (que foi adaptado do livro 1), Phryne tem um caso tórrido com um dançarino russo. Na TV, ela dá pro cara para descobrir se ele é mesmo a fim de uma outra (não fez muito sentido pra mim, mas quem sou eu né). Isso não impede que ela troque olhares interessantes com o Detetive Inspetor Robinson e me deu esperanças de que a Phryne teria vida parecida com a do livro.

No episódio 2 (livro 3), Phryne tem um caso longo com um joveno estudante da universidade de Melbourne. Na TV, só existe uma sugestão de flerte, e Phryne diz que não vai sair co cara porque ela não dorme com suspeitos de crime (mas no livro ela não tem a menor dificuldade em fazer isso). Dito isso, como o ator que faz o joveno é bem estranho, deixamos passar.

No episódio 3 (livro 5), é a vez de um jazzista, mas na TV ela só troca olhares, convida o cara pra jantar e recusa o bem-bom porque ele não deu as respostas que ela queria sobre o crime. No livro a coisa vai longe e ela consegue descobrir o que ela quer saber em longas conversas regadas a vinho e bourbon. O episódio foi bem sucedido na hora de descobrir o assassino, mas todo o resto da adaptação é terrível; perdeu muita coisa boa. No livro ela cruza os alpes australianos para conseguir mais pistas, e tem um romance com um personagem incrível que foi completamente alterado no episódio. Não só não teve romance nenhum, como na série o cara é um idiota fracote e covarde.

No episódio 4 (livro 4) Phryne finalmente consegue ação na TV: o comunista russo que ela traça no livro realmente frequenta a cama dela – até aparece os dois deitados conversando *gasp* sem camisa (mas sem mamilos polêmicos, ela está de costas pra câmera porque é uma série para famílias). Peter Comunista é um dos grandes romances dela nos livros, acho que por isso que os roteiristas deram um desconto pra ele na TV.

No episódio 5 (livro 9) foi uma grande falta de sacanagem: no livro, ela arranja um novinho muito rico, judeu, e tem várias cenas engraçadas com a família dele quando a mãe do garoto tenta descobrir o que a Phryne quer com ele (spoiler: dar). Na série, sequer rola um beijinho. Motivo: alguém entra pela janela da casa dela bem quando eles iam tomar um vinho em frente à lareira – o que os roteiristas não fazem para manter a (semi) virtude de uma protagonista…

No episódio 6 (livro 7) o ator de teatro bonitão que ela quase pega morre esmagado no palco (!). Felizmente o querido Lin é um caso mais longo e aparece em mais de um livro, então a TV teve que se contentar e ela de fato tem o romance com um chinês. Infelizmente ele obviamente é interpretado por um chinês mestiço de quinta geração que tem apenas traços asiáticos leves. O médico australiano que ela tinha arranjado em outro livro e deu um respeitoso fora nela nesse nem aparece na TV.

Para finalizar e não deixar o texto com doze páginas, no episódio 11 (livro 6) a adaptação estragou tudo. TUDO. Gente, dois. DOIS jovenos só pra ela (um cigano e um artista de circo, tá) e na TV nenhum deles aparece. É muita crueldade com a pobre Phryne. Eles inventam um romance boboca com um personagem que mal aparece no livro, mudam a história toda, eliminam todas as cenas tensas (pelo menos admitiram que violência e sexo são igualmente impróprios para menores) e fica tudo sem graça. Mas o que dói mais é a ausência dos jovenos. Primeira protagonista de livro não-pornográfico que passa a noite com dois ao mesmo tempo e isso não aparece na TV? Imperdoável.

E no livro ela nem faz nada com eles (naquele momento), antes que vocês venham me reclamar de impropriedades: ela só dorme entre os dois, que estão protegendo ela dos malvados.

Então só na matemática: em SETE episódios da TV ela dá pra TRÊS. Nos livros correspondente ela dá pra OITO. E em todos os casos são homens bonitos, afetuosos, inteligentes, e os romances dela são respeitosos e agradáveis. Ela trata todos com carinho e eles ficam maravilhados. Ela não se apaixona por nenhum deles – além da paixão no momento necessário – porque ela não precisa disso. O mais próximo que ela chega de um romance mais tradicional é com o querido Mr. Lin, um jovem chinês-australiano educado em Oxford que é o líder de uma poderosa família chinesa em Melbourne.

Kerry Greenwood fez de propósito. Ela escreveu uma protagonista digna da época em que a história se passa, mostrando pra gente como regredimos nos últimos 100 anos. A TV só prova o ponto dela: afora os ligeiros romances que Phryne consegue ter na série, e a “coragem” que a série tem de fazer algumas lésbicas aparecerem (mesmo que na TV elas sigam a regra de lésbica morre enquanto que no livro elas vivem feliz pra sempre), o mais revolucionário que fizeram foi trazer Essie Davis com mais de trinta anos pra fazer a Phryne.

Dito isso, gente morta violentamente tudo bem, então todos os assassinatos dos livros aparecem na TV – com direito a tiros, envenenamento, estupro, tortura, mumificação enquanto a vítima está viva e tudo o mais que crianças podem ver com as avozinhas à tarde.

Pra completar com a cereja no bolo, a série inventou o romance eterno e perfeito com o Detetive Inspetor Robinson, pra Phryne ser liberada mas não tanto assim porque no fim quer um amor perfeito monogâmico. (única coisa boa que o filme fez foi melhorar isso aí).

Chama o que? Machismo 🙂

Então é isso. É uma série fofa que merece ser assistida. (O filme é um caso à parte que precisa de outra postagem.) Os livros são todos muito bons. A TV são tudo machistas.

Miss Fisher’s Murder Mysteries (2012-2015) | 3 Temporadas | com Essie Davis, Nathan Page, Hugo Johnstone Burt, Ashleigh Cummings

Renata

Nas horas vagas eu jogo RPG e faço meus desenhos. Quando dá, eu leio. Se eu conseguir fazer pelo menos uma pessoa ficar feliz com os livros como eu fico já estou mais do que satisfeita com essa vida.

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