Kushiel’s Dart | Jacqueline Carey

Phèdre foi doada para a igreja quando muito novinha, porque nasceu defeituosa: ela tem um ponto no branco dos olhos que é considerado suficiente para que ela não seja casável. O reino é Terre d’Ange, onde todos são descendentes dos anjos do céu, literalmente, e onde todos idolatram a beleza. A religião é a de Elua, o profeta filho de Deus que desceu à terra para pregar “ame como quiserdes”. Em Terre d’Ange, toda forma de amor é válida e aceita, desde o casamento heterossexual até a prostituição, que é vista como profissão de luxo e ligada à igreja de Namaah, prostituta que foi perdoada por Elua, casou com ele e ajudou-o a fundar o reino de Terre d’Ange.

Então no caso Phèdre é doada justamente para a igreja de Namaah, em que seus discípulos defendem toda forma de amor e onde as sacerdotisas são cortesãs. Ainda por cima, o pontinho no olho de Phèdre revela que ela é uma das escolhidas de Kushiel, o anjo da dor e da punição, e por isso para ela toda forma de dor leva ao prazer.

Quando ela termina seu treinamento, Phèdre é adotada por Anafiel Delaunay, um nobre de bastante influência. Ela passa a viver na casa dele, e aprende toda forma de habilidades para poder ser excelente na sua profissão: espiã para Delaunay, que a envia para satisfazer colegas e desafetos ao mesmo tempo em que a usa para conseguir informações sobre a situação política de Terre d’Ange.

A primeira parte do livro já é extremamente envolvente, contando o início da vida de Phèdre na igreja de Namaah, passando por treinamento com Anafiel e sua apresentação na corte. Mas aí acaba o primeiro terço da história, tudo muda de forma drástica e Phèdre vai parar na terra dos bárbaros do norte, onde ela vai precisar de todas as suas habilidades para sobreviver.

Kushiel’s Dart é um livro difícil de se descrever. É um livro de personagens bem desenvolvidos, cenas de ação empolgantes e um enredo inteligente. Mas também é um livro cheio de cenas de sexo pesadas, com uma ideia religiosa polêmica permeando tudo e um mote – “ame como quiser” – que pode parecer bastante escandaloso para muitos leitores. E, para completar, a protagonista é uma cortesã-espiã-sadomasoquista numa França de fantasia da época renascentista. É um tema que não é muito fácil de desenvolver, e que nem todo mundo vai se sentir à vontade para ler.

Não cheguei a ficar surpresa por ter gostado do livro, porque já tinha visto gente que eu acompanho falar bem; o que me surpreendeu foi a qualidade de tudo! Caracterização, ambientação, motivações, para não falar na trama em si, são da melhor qualidade. A autora escreve muito bem, os personagens são marcantes e a história é envolvente.

Os coadjuvantes também são devidamente incríveis: Melisande, uma nobre lindíssima que é crush eterno de Phèdre; Joscelin, um monge celibatário bonitão; Waldemar Selig, o líder das tribos do norte que quer invadir Terre d’Ange; Hyacinthe, um moço cigano amigo da Phèdre; Anafiel, o nobre que resgata Phèdre do orfanato e ensina a ela a arte da espionagem.

A escolha de ter a narrativa em primeira pessoa, por mais que seja comum em livros de fantasia ou eróticos, fez a história ficar mais interessante e empolgante porque o leitor fica de fora das intrigas palacianas e conspirações entre governantes que fazem o pano de fundo da aventura, já que estamos cientes apenas do que Phèdre tem acesso. Além disso também é refrescante, num mundo em que os romances eróticos tem a mania de colocar como protagonistas moças virgens apaixonadas por conquistadores bonitões, ler a voz de uma cortesã que tem interesse em transar com 100% dos personagens que aparecem na frente dela.

A autora não perde a mão em momento algum, nem nas cenas eróticas com sadomasoquismo, nem nas batalhas épicas em que Phèdre sempre consegue se enfiar. É uma leitura ágil e emocionante, com reviravoltas dignas e personagens memoráveis.

Recomendo fortemente, com o adendo do alerta de que possui várias cenas eróticas e com temática BDSM.

Kushiel’s Dart (2001) de Jacqueline Carey. Kushiel’s Legacy, Livro 1

Renata

Nas horas vagas eu jogo RPG e faço meus desenhos. Quando dá, eu leio. Se eu conseguir fazer pelo menos uma pessoa ficar feliz com os livros como eu fico já estou mais do que satisfeita com essa vida.

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