Tehanu | Ursula K. Le Guin

Cerca de 25 anos depois dos eventos em As Tumbas de Atuan, e meros dias após o fim de A Última Praia, Goha é uma viúva vivendo placidamente na sua fazenda em Gont. Seus dois filhos  já são adultos, a mais velha com o marido na cidade, e o mais novo por aí marinheiro.

Dois homens e uma mulher acampam fora da aldeia. Os dois obrigam a mulher a pedir dinheiro e se prostituir. As mulheres da aldeia tentam ajudá-la, mas, aterrorizada, a mulher sempre voltava pra eles. Um dia, um dos homens vai até a bruxa da aldeia, pedindo ajuda, pra que alguém vá salvar “a criança”. Os aldeões vão até o acampamento improvisado dos três e encontram uma menina de sete ou oito anos jogada na fogueira. Os adultos haviam fugido. As mulheres da aldeia fazem o possível pela criança, que sobrevive. Com metade do corpo queimado, cega de um olho, uma das mãos ressequida em uma garra esquelética. Goha fica com a garota, e a chama de Therru.

Goha não é uma fazendeira normal. Além de ser uma estrangeira em Gont, de pele branca, vinda das ilhas Kargad, ela conhece pessoalmente Ogion, o mago das montanhas. Ninguém que ela conhece sabe, mas ela havia sido a sacerdotisa única dos poderes sombrios em Atuan, e fora para a grande ilha de Havnor portando o Anel de Erreth-Akbe. Seu nome verdadeiro, que havia sido tirado dela quando criança, fora devolvido a ela pelo mago Gavião: Tenar.

Um mensageiro chega na fazenda, dizendo que Ogion mandou por Tenar: o velho mago está morrendo. Tenar vai com Therru ajudar na passagem, e logo antes de falecer, Ogion dá um suspiro, dizendo que está tudo certo agora, que tudo vai melhorar. Alguns dias depois, um enorme dragão vem do oeste, carregando o corpo desfalecido do arquimago das ilhas. Kalessin deixa que Tenar suba nele para resgatar Ged. E voa pra longe.

A vida de Tenar se muda para a casinha de Ogion, perto da cidade de Re Albi. Ela, Therru, Ged em recuperação, a bruxa da aldeia Tia Musgo, e Érica, a pastora de cabras. Mas o arquimago perdeu seus poderes, homens maléficos frequentam a casa do Senhor de Re Albi, e o homem que abusou de Therru está rondando.

Escrito quase vinte anos depois do anterior da série, Tehanu é uma história de fantasia muito diferente tanto do resto da série quanto do resto dos livros de fantasia. É uma história contida, trágica, tensa, onde não há viagens ou grandes feitos. Tenar conversa muito, com Tia Musgo, com Ged, e até com o rei.  Tenar quer entender porque homens são feiticeiros respeitados e estudados enquanto mulheres são bruxas ignorantes nas aldeias. Quer entender porque Ged perdeu os poderes. Quer ajudar sua filha Therru a ter um lugar no mundo. Dá pra ver que os personagens estão discutindo temas que a própria autora passou anos organizando.

Eu li a série pela primeira vez na juventude, e esse livro não me desceu. Achei difícil, lento, complexo e triste. Eu não quis aceitar o fim da história, simplesmente não estava pronta pra ver Ged e Tenar daquele jeito. Mas eu tinha quinze anos. Os protagonistas dessa história passaram dos quarenta. Não era um livro escrito pra mim.

Dessa vez, que eu estou mais próxima da idade deles, o livro passou voando. Continua complexo, tenso e triste, mas a tensão faz a leitura ágil e a tristeza é mais fácil de lidar hoje. A história é sobre envelhecimento, maturidade, decisões difíceis; a autora quer discutir gênero, abuso, violência dos poderosos, fragilidade dos idosos. Eu consigo hoje dar conta de acompanhar, mas nunca vai ser um livro fácil; não foi a intenção dela ser fácil, e sim acompanhar onde estava o mundo de Terramar tantos anos depois.

Depois de Tehanu, ela publicou mais dois livros da série, dez anos depois. Eu não queria ter deixado Terramar no ponto em que Tehanu terminou. Então não sei se eu que fiquei mais madura mesmo ou se os outros dois livros me acalmaram o suficiente para eu conseguir reler tudo agora.

Tehanu (1990) de Ursula K. Le Guin | Ciclo Terramar #4

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top