Através do Universo | Beth Revis

Daí eu fui lá e li mais um romance adolescente. Eu sei. Eu SEI que eu não devia. Mas eu juro que peguei no aleatório e nem sabia do que se tratava! (ok, eu achei que fosse algo do tipo a versão livro do filme com o tema Beatles, sabe? enfim, eu estava tão errada.) Ó, o lado bom é que o livro é impossível de largar. Não consegui parar de ler do momento em que peguei na mão. Ok que muitas vezes eu pulava alguns parágrafos (Amy dormindo = eu com sono e também as partes “”””românticas””””), mas em geral a ambientação que a autora criou é muito foda. O livro me lembrou muito um Cidade das Sombras piorado – porque adolescentes com muitos hormônios são receitas pra me deixar blé, mas, como eu falei, peguei o livro sem saber e depois não conseguia mais largar – com essa pegada claustrofóbica e fim-do-mundo e mistérios que não acabam mais.

Amy é filha de um casal ninja que vai ser congelado para a primeira viagem interplanetária da história. O pai militar e a mãe cientista especialista em genética mexeram os pauzinhos e conseguiram que Amy também pudesse ser congelada para a viagem de 300 anos na nave. Só que o sono criogênico não é uma grande dormida, como Amy estava esperando, mas sim uma sensação bastante perturbadora de estar acordada, cega e sem poder se mexer, por anos e anos e anos. Divertido pacas. Daí conhecemos Elder, um moleque de dezesseis anos que vai ser o novo líder da nave que está “prestes” a aterrisar no novo planeta (faltam cerca de trinta anos, pelo que me lembro). Ele está sendo treinado para ser líder pelo líder atual, um velho mandão que chamam de Eldest. A nave é dividida em vários níveis: os Feeders, que são basicamente fazendeiros, os Shippers, da engenharia/mecânica, e os Keepers, que mandam. E aí alguma coisa dá errado e Amy é acordada muito antes do previsto. Elder está lá para impedi-la de se afogar no líquido congelante, e Doc (o médico da nave) garante que ela não pode mais ser congelada porque se não pode morrer porque as células e blá. E é isso! Amy agora tem que viver o resto da vida na nave e isso já seria deprimente o suficiente se não fossem as coisas bizarras que acontecem por lá.

Os Feeders parecem pessoas meio sem cérebro, sem opinião própria, sem iniciativa e sem a menor vontade de questionar as coisas. Aos vinte anos, todos passam por uma espécie de “cio coletivo” e trepam pela nave inteira – menos os “loucos” no hospital, que não se sentem muito dispostos a isso e acham que são anormais (Elder é um dos loucos). Quando as pessoas ficam velhas e começam a confundir as coisas, são levadas para o misterioso quarto andar do hospital e de lá nunca mais voltam. As pessoas ou têm quarenta anos de idade, ou têm vinte anos de idade, ou têm sessenta e estão sendo levadas para o quarto andar. As únicas exceções são Eldest, que tem quase setenta, e Elder, que tem dezesseis. O mistério dessas diferenças de idade é aos poucos sendo explicado, assim como o comportamento estranhíssimo dos tripulantes da nave. Isto é, estranho para nós e para Amy, porque todos ali acham tudo muito normal.

E além disso tem algum psicopata descongelando as pessoas da missão e deixando-os para se afogar no líquido do congelamento. E o Eldest está preocupadíssimo com a presença de Amy, que ele considera uma distração para o treinamento de Elder e uma ameaça para a paz da nave. E por fim, Elder cada vez mais repara que as coisas não estão sendo contadas pra ele direito. Ele tem medo de ir contra a autoridade de Eldest, mas se ele não souber o que está acontecendo, como poderá ajudar a tripulação e ser um bom líder?

A ambientação eu achei muito legal. No começo, mal conseguia largar o livro. Os mistérios vão sendo colocados de forma a serem revelados aos pouquinhos, mantendo o leitor preso: quem descongelou Amy? Do que Eldest tem medo? Porque Elder tem que tomar remédios? Porque os Feeders são tão desmiolados? Quem está matando os congelados? O que causou a Peste? etc. A situação claustrofóbica e misteriosa, assim como os pequenos pontos jogados pela autora para deixar tudo ainda mais estranho (a história alterada, a falta de fotografias, os animais bizarros) fazem com que o livro tenha uma atmosfera perfeita.

Os protagonistas são chatos como sempre (com uma cereja no bolo que já comento). Não tenho paciência para adolescentes trágicos – será MESMO que todos são trágicos? Tenho minhas dúvidas. Mas nos livros parece que todos são. De qualquer forma o desenvolvimento do relacionamento deles vai indo bem, até que chega o final e é merda no ventilador de forma tensa.

Meus problemas com o final: (os caps é porque estou revoltada, perdoa)
Se o Orion estava na nave faz ANOS e com essa idéia maligna faz ANOS, porque resolveu matar o pessoal logo agora? Resposta (ruim): porque ele só teve a ideia de descongelar o pessoal por causa do Elder (já falo mais disso), aparentemente devido ao fato de que ele é um imbecil que não teve a mesma capacidade intelectual de um mirim de dezesseis anos. DAONDE meodeos DAONDE que ele tirou que ele ia ser escravizado pelos congelados? Isso não faz o menor sentido. E se o povo tinha tecnologia para criar uma nave do TAMANHO DE UMA ILHA e congelar um monte de gente, cadê a tecnologia para congelar TODO MUNDO, e o computador acorda o pessoal quando chegar na hora? SÉRIO que o governo enfiou três mil pessoas numa nave sem antes checar se o combustível era 100% renovável? “A nave está em piloto automático”. Ok, então me explica o motivo de ter TRÊS MIL tripulantes que precisam trabalhar nesse trambolho.

Eu sei que isso parece culpar a vítima. Mas a Amy sempre insiste em fazer o que falam pra ela não fazer, né? “Não vai andar entre o pessoal porque eles são se dão bem com pessoas diferentes!” e ela vai lá fora e é quase morta por um dos imbecis. “Não vai lá fora porque tá todo mundo no cio!” e ela fala, ai, relaxa, vou ficar bem. E sai lá fora e é quase estuprada. Ela “precisa” correr porque era isso que ela fazia na Terra, mas depois de uma vez só já fica de boa e não fala mais nisso. E interrompe pessoas fazendo tarefas para dizer “nossa, você não pode mexer com hormônios! isso é perigoso!” – eu sei que a cena era pra mostrar que os Feeders são incapazes de pensamento individual, mas fala sério. A menina interrompe uma mulher ADULTA fazendo seu trabalho, pra encher o saco e dizer que “você não sabe o que está fazendo!”. Pirralha insolente, vai achar alguma coisa pra fazer!

E aí, finalmente, para a cereja no bolo + merda no ventilador:
o prêmio de assassino / descongelador de pessoas / punheteiro perturbado do ANO vai para: o par romântico de Amy, o fofucho Elder. Eu juro que gostaria de saber onde que as autoras enfiam a cabeça na hora de criar romances fofos para a faixa etária que já é naturalmente perturbada sem precisar de mídias externas pra piorar. Vamos revisar? Vamos. O Orion tá lá, causando, acabou de matar o velho, e até falou que “vai pensar” se vai deixar as pessoas congeladas viverem. E quando a Amy começa a protestar (“meu pai mimimi”), o Orion dá risada e diz que teve a ideia de descongelar as pessoas por causa do Elder! “Quer que eu conte pra ela o que você fez, Elder? Há Há!”. E o Elder SUPER NORMAL enfia o Orion numa cabine congeladora e mata o cara afogado. Gente tranquila, gente normal, gente ROMÂNTICA. E como o Elder é narrador, ficamos sabendo que ele até acha que pode ter feito a coisa sensata ao matar o Orion – ok, eu também acho que a teoria dele de “seremos todos escravizados” é meio paranoica, mas não o suficiente pra afogar o cara – mas que ele (Elder) tem dúvidas se não matou o Orion para que este não revelasse a verdade. 

E a verdade é que Elder foi o descongelador de Amy. Porque ele se apaixonou por ela (se apaixonou por uma garota pelada congelada num esquife de vidro quase igual a Branca de Neve, gente, VEJEM BEM) e queria viver o tal do cio com ela (ROMÂNTICO) e não sabia que ela não poderia ser congelada de volta (tipo, queria te comer e te botar pra dormir de volta né há há) e nossa como ele se sente mal com isso gente. E o livro termina com ele contando isso pra ela, o que já não faz o menor sentido DE NOVO porque ele total matou o Orion por causa desse segredo – e mesmo que não fosse. Mesmo que ele tenha matado o Orion pra proteger o pai dela. Sério mesmo que esse é o mocinho? Matando pessoas porque sim? Justo. E aí ela perdoa ele, porque pelo menos ele contou a verdade, e ela não quer ficar sozinha no espaço.
Fim.

Tem tantas coisas TANTAS COISAS erradas nisso que eu nem sei como, sabe. Gente fala sério ele ficar indo ver a menina congelada e pensando em como seria se ele pudesse ver os peitos dela através do gelo é muita perversão!! E aí ele acorda ela e ela nunca mais vai ver a própria família por causa desse infeliz e ela resolve ficar com ele???

Mas ó. A ambientação é muito boa. A história é bem construída. Eu até fiquei com vontade de ler o próximo. Mas o romance, e esse final? Fica difícil demais! Pra quem gosta de romances adolescentes e não se importa nem com erros científicos nem com romances PERTURBADORES tipo Crepúsculo, é uma boa pedida, eu acho.

PS só eu que acho que esse livro foi inspiração para aquele Passageiros lá com a Jennifer Lawrence? Ou tem muitas outras histórias em que o cara descongela a menina e destrói a vida dela pq ela é linda e ele quer transar viver pra sempre com ela?

Across the Universe 2011 de Beth Revis – Trilogia Across the Universe Livro 1

Renata

Nas horas vagas eu jogo RPG e faço meus desenhos. Quando dá, eu leio. Se eu conseguir fazer pelo menos uma pessoa ficar feliz com os livros como eu fico já estou mais do que satisfeita com essa vida.

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