I’m Glad My Mom Died | Jennette McCurdy

Jennette McCurdy foi uma criança na televisão, com uma carreira de sucesso em uma série infantil. A mãe dela a pressionou para começar a participar de audições aos seis anos de idade, fez ela virar  anoréxica para adiar a puberdade e conseguir mais papéis infantis, dava banho nela até os 17 anos, era acumuladora, tinha ataques violentos de raiva e chorava por razões como Jennette querer um sorvete de outro sabor.

Jennette conta sua história cronologicamente, em primeira pessoa, começando pela sua infância, passando pelo período da doença e morte da mãe, e finalizando com seu próprio processo de autoconhecimento.

Ao mesmo tempo em que o livro relata experiências extremamente desagradáveis, abusivas e violentas, a narrativa consegue ser leve e divertida justamente pelo talento da escritora. A história não é necessariamente contada usando o passado – e sim usando uma mistura com o presente, colocando a voz da narradora na idade que ela tinha na época.

Como a escritora é excelente, é possível perceber a diferença entre sua ‘voz’ de seis anos quando a mãe persegue o pai pela casa com uma faca; entre sua ‘voz’ da adolescência, que ficou terrivelmente envergonhada quando sua mãe contou para todo o estúdio que ela tinha menstruado pela primeira vez; e sua ‘voz’ adulta, que fica irritada e culpada quando a mãe manipula as coisas para se mudar pra casa dela.

O livro é parte da jornada de cura da ex-atriz, que passou por situações de quase morte por bulimia antes de conseguir pedir ajuda. Ao mesmo tempo em que ela consegue expor as loucuras da mãe, ela também consegue deixar a falecida mais humana, sem tentar desculpar ou perdoar o que foi feito. Afinal, de acordo com um dos terapeutas da autora, às vezes é preciso deixar de ter o perdão como foco, já que achar formas de perdoar abuso parental é exatamente o que a mãe esperaria do filho.

Outra discussão muito importante que o livro tenta trazer é o endeusamento das mães, que são colocadas em um pedestal intocável com o sacrifício e o amor infinito que têm pelos filhos; pessoas que possuem pais abusivos são praticamente proibidas de falar mal das mães ou serão julgados como ingratos, mimados, sem paciência.

Como bônus, o livro também revela momentos bastante problemáticos que a moça passou nos bastidores da Nickelodeon, que a demitiu logo após sua série spin-off de iCarly ter sido cancelada na segunda temporada. Segundo Jennette, a emissora chegou a oferecer US$ 300.000 como bônus da demissão se ela prometesse não falar nada sobre os bastidores da série. Ela recusou. Após a publicação do livro, a Nickelodeon emitiu um comunicado de ‘no comment‘.

I’m Glad My Mom Died é um livro ao mesmo tempo tocante e divertido; terrível e engraçado; angustiante e revelador. Imagino que para quem teve mães ‘complicadas’, o livro seja um sopro de ar puro na sociedade de hoje; mas recomendo a leitura para todos devido não só à autora talentosíssima mas também à narrativa cativante.

I’m Glad My Mom Died (2022) de Jennette McCurdy

Renata

Nas horas vagas eu jogo RPG e faço meus desenhos. Quando dá, eu leio. Se eu conseguir fazer pelo menos uma pessoa ficar feliz com os livros como eu fico já estou mais do que satisfeita com essa vida.

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