Mr. Christopher morreu com uma facada no coração. A porta do quarto está trancada. Não há arma do crime no local. A polícia encontra roupas de homem e de mulher no armário da vítima. E a faca ensanguentada escondida no guarda roupa de uma moça que mora na mesma pensão.
A polícia está preocupada com guerras entre gangues e uma nova organização criminosa que está conseguindo auxiliar na fuga de prisioneiros perigosos. O circo de Farrell, no momento em Melbourne, está sofrendo com diversos problemas, e alguns dos membros que acompanham a vida circense vão pedir ajuda a Phryne Fisher. A única forma que eles acham que ela pode resolver os problemas do circo é se ela se disfarçar e entrar como uma das novas moças que fazem acrobacia em cavalos.
A primeira vez eu gostei
Quando eu li o livro pela primeira vez, ele me impressionou pela qualidade das descrições da vida circense. Eu tenho muita simpatia pelo circo e claramente a autora fez uma bela de uma pesquisa histórica local sobre pessoas do circo na Austrália de 1928. O livro me entristeceu porque cem anos depois o circo quase não sobrevive.
Isso me fez deixar o livro de lado nas minhas releituras porque só me sobrava o gosto ruim. Fui reler pela primeira vez depois de anos só agora. E daí eu descobri que o gosto ruim não tem nada a ver com o circo. O circo é a parte boa. O assassinato do Mr. Christopher também é a parte boa. A guerra de gangues foi uma tentativa nova da autora, e que eu não prestei muita atenção porque não vi graça. A sub-trama da organização que ajuda prisioneiros a fugir foi boa só porque nos apresentou aos melhores personagens do livro: o policial jovem, a Lizard Elsie e o relacionamento dela com a pobre lá que foi acusada injustamente. Essa parte foi mais de acordo com o tipo de livro-conforto que essa série é pra mim.
Eu não vou falar da questão trans porque não é meu lugar de fala.
Agora, o problema
PHRYNE É UMA INSUPORTÁVEL nesse livro. Insuportável e irreconhecível. Ela é mimada, chorona, manipuladora, burra, e completamente inconsistente com o resto dos livros da série. Phryne não é pra ser uma humana cheia de falhas: ela é a detetive que sempre resolve os casos. As fraquezas dela são conhecidas: ela gosta dos jovenos, ela gosta de boa comida, boas roupas, boa vida. Ela tem pouca paciência.
No entanto, para construir o drama desse livro, a autora decidiu que Phryne estava entediada com a vida fácil de milionária dela. Quando os carnies vem pedir ajuda com o circo e dizem que a única forma de investigar seria ela ficar undercover, e ela fala que não, uma das moças fala, com desprezo, que a Honorável Miss Fisher só quer saber de luxo e jamais que ia sair por aí sendo pobre. Phryne tenta se justificar falando que já foi pobre, fica se sentindo mal; o cara fala que ela tá com mão suave, de rica, e com os músculos moles. E ela cai nessa.
Devido a essa manipulação barata de um cara qualquer que ela deu faz tempo, ela decide ajudar e vira Fern, a acrobata de cavalo. Vai lá ser uma pobre que anda com roupa de segunda mão, mal tratada por todo mundo porque tá no final da hierarquia do circo, ignorada pela trapezista. E fica choramingando.
A primeira coisa que ela faz é quebrar as regras do circo. Regra: não é pra sair por aí dando porque daí vagabunda e os caras não vão te deixar em paz. Ela vai lá e dá pra um cara na primeira noite. Regra: não é pra dar pra palhaço porque palhaço não pode. Ela decide que o cara que ela vai dar é justamente o palhaço. Regra: não é pra se misturar com os carnies nem com os ciganos e muito menos com os meio-ciganos – ela vai lá e faz o quê? Dá pra um carnie-meio-cigano eu juro pra você amiga pelo a mor. Aí ela é ostracizada pelo povo do circo e fica ainda mais chateada se lamentando.
Uma. Semana.
Tudo isso é só reclamação minha, normal, mas o que MAIS me irritou foi: tudo isso durou uma semana. Uma. Semana. Uma apresentação. E ela lá “agora faço parte do circo”, “agora eu estou do lado de cá do palco”, “agora sei o que é estar sozinha e pobre” e mais um monte dessas bostas. Uma. Vez. Ela se achando parte do grupo. Sendo que foi descoberta em dois minutos pelos malvados, daí capturada, daí quase estuprada e deixada pra ser comida pelos leões literais e só sobreviveu por PURA SORTE. E aí fica “superei estar sozinha, superei viver longe do luxo, agora passei por essa provação”.
Enquanto o livro segue alterando pontos de vista e dá pra se divertir especialmente com Lizard Elsie, Phryne virou uma personagem tão detestável e ridícula que a única razão de eu ter continuado a série foi eu ter simplesmente ignorado esse livro em todas as minhas releituras. Felizmente daqui pra frente a autora não escorregou mais porque olha. Esse daqui foi feio demais.
Blood and Circuses (1994) de Kerry Greenwood | Phryne Fisher livro 6