Ainda Não Morri | Holly Jackson

Jet levou uma pancada na cabeça e tem só mais uma semana de vida. Ela decide usar esse tempo para descobrir seu próprio assassinato. Essa premissa precisa de um pouco de flexibilidade imaginativa. Toda a conversa técnica médica não foi o suficiente para me convencer. No entanto, partindo da ideia de que ela tem uma semana só de vida e pronto, a primeira metade do livro vai indo bem.

Jet tem vinte e sete anos, por aí, e se sente uma fracassada porque nunca terminou nada que começou. Ela largou a faculdade e não terminou seu estágio na empresa da cidade grande. Daí voltou pra casa pra morar com os pais enquanto decide o que vai fazer da vida. “Ela tem todo o tempo do mundo”.

Todos os personagens da história são apresentados nas primeiras páginas, quando Jet está perambulando pela festa de Halloween que a família dela organizou. A primeira coisa que eu pensei foi “no final o assassino vai ser uma dessas pessoas e eu vou ficar tipo quem é esse?” porque é muita gente aparecendo e o livro não explica muito bem quem é quem. Aí a Jet chega em casa depois da festa, leva a pancada na cabeça, e o livro começa.

A médica explica os bagulho lá, e é só inverossímil, mas o ponto nem é esse: o ponto é que a Jet já começa a ser difícil pra mim. O traço de personalidade dela é que ela não quer estar ali. Ela se irrita com tudo que a família dela faz, ela não parece gostar da cidadezinha, ela não tem amigos. Ela é só uma adolescente mimada que só reclama; mas era pra personagem ter quase trinta anos. Quando ela recebe a notícia de que tem só uma semana de vida, ela decide que “vai terminar alguma coisa uma vez na vida” e decide ir atrás de descobrir quem golpeou a cabeça dela e tal.

A mãe dela é uma narcisista difícil demais, enquanto o pai é um molenga, e o irmão mais velho é um grosso, e a cunhada é uma falsa. Até aí, tudo bem. Mas vejam. A família da protagonista são todos uns malas. A protagonista é uma chata. A polícia é incompetente. Então a gente tá fazendo o que aqui mesmo?

Felizmente pra Jet, ela tem um capacho. Billy é claramente apaixonado por ela desde criancinha, ela finge que não percebe, e quando ela briga com a família e sai de casa pra descobrir seu assassinato, ela simplesmente chega de mala na casa do Billy e pede pra ele ajudar ela. Então enquanto a Jet vai perdendo o uso dos membros porque afinal está com um coágulo no cérebro, ela tema sorte de ter um infeliz que faz tudo o que ela manda sem questionar. Ele leva ela nos lugares, ajuda ela a invadir propriedade privada, destruir coisas, invadir cena do crime, enfim, qualquer coisa que ela peça; e quando ela não consegue fazer as coisas fisicamente, ele vai lá e carrega ela pros lugares.

O grande spoiler

Então vamos lá. A Jet não descobre quem matou ela. Mas felizmente ela descobre algo muito mais importante: ela descobre como viver. A última semana de vida dela andando pra lá e pra cá com o Billy fez ela perceber que estava se apaixonando por ele e que a vida é muito mais do que só correria; no fim das contas ele fez ela se sentir viva pela primeira vez na vida.

Então a Jet é aquela protagonista de comédia romântica que vai pra cidade grande mas é tudo muito estressante e daí ela volta pra cidadezinha de onde ela veio e reconecta com um amor de infância e descobre como viver de verdade. Esse clichê já me irritaria mais do que qualquer outra coisa mas além disso ela não descobre seu próprio assassino. Ela falha na sua missão! E o livro meio que deixa isso ser pouco importante porque ela aprendeu a viver? Ah, pelo amor viu.

O traço de personalidade da Jet é que ela precisa descobrir seu próprio assassino. E ela não consegue! Quem descobre tudo é o Billy, ok que com as coisas que eles descobriram juntos, mas mesmo assim a autora não dá essa pra Jet. Coitada, mano. Enquanto isso o Billy que é um molenga pior que o pai da Jet vai confrontar o assassino do jeito mais idiota possível e fica pensando “preciso fazer isso pela Jet porque a Jet era uma mulher forte”. Tão forte que com quase trinta anos tem os mesmos traumas da adolescência que nunca foram resolvidos e não consegue fazer nada da vida porque é uma rica inútil. Ainda bem que ela “aprendeu a viver” com o Billy e pôde ter uma única semana vivendo de verdade, né. Ufa.

A maravilhosa família de Jet

A família toda da Jet é um bando de psicopatas. Era uma vez que a Jet tinha uma irmã mais velha, que morreu num acidente tenebroso aos dezesseis anos. Jet estava sendo campeã do campeonato de soletragem na escola aos dez anos, enquanto que Luke, o irmão do meio, aos treze anos, estava jogando bola no vizinho.

Durante a investigação do próprio assassinato, Jet descobre que foi o irmão que matou a irmã mais velha. Luke, aos treze anos, AFOGOU a irmã de dezesseis na piscina de casa, por causa de uma briga. Depois disso, Luke saiu vivendo por aí como se nada tivesse acontecido, como se de fato tivesse sido um acidente, e aparentemente zero culpa.

Além disso, Jet descobre que a cunhada, esposa de Luke, está envenenando o pai deles, substituindo as cápsulas de remédio do velho pra ele piorar de saúde e se aposentar, deixando a construtora da família pro Luke. Depois, Jet descobre que Luke não é filho do pai deles; a mãe teve um caso de anos e anos com um vizinho e Luke é filho desse cara. Esse mesmo vizinho viu Luke afogando a irmã mais velha e preparou toda uma história de acidente com álibi para o filho. Como se não bastasse, Luke está falsificando os registros da empresa da família pra poder pagar menos imposto; está coagindo funcionários a trabalharem sem registro; quando um dos funcionários sofre um acidente de trabalho e perde a visão de um dos olhos, o plano de saúde da empresa não cobre os custos já que o cara tava trabalhando por fora; o Luke então vai na casa do cara e espanca o funcionário cego de um olho pra ele não contar pra ninguém que ele perdeu a visão num acidente da obra. Quando o Luke vê a Jet invadindo a construtora de noite pra tentar descobrir coisas, ele resolve que a melhor coisa se fazer é colocar fogo no prédio pra apagar os rastros. Felizmente Billy e Jet conseguem escapar do fogo; Jet descobre que Luke não pode ter sido quem bateu na cabeça dela porque ele estava espancando o funcionário no mesmo horário, álibi comprovado. Jet também descobre que a mãe dela fez uma garota ser demitida de um emprego que precisava e daí a menina se suicidou.

O assassino, finalmente

Daí que a gente quer saber finalmente quem é o tal assassino. E aí o Billy que descobre, com as pistas que a Jet descobriu, e vai confrontar o cara. E era pra ser surpreendente – e no caso, me surpreendeu sim, mas pela idiotice.

Lembra do amante da mãe de Jet, o pai verdadeiro do Luke? Ele descobre que o pai (de Jet) vai vender a construtora para dividir o valor entre ‘os dois filhos’ (Jet e Luke) em vez de deixar tudo pro Luke. E o cara decide matar a Jet para que a construtora fique com o Luke.

Esse cara é ninguém mais ninguém menos que o pai do Billy. O policial da cidade. Vizinho de Jet a vida toda. E que eu não sabia quem era porque nunca consegui saber quem era quem no livro. As únicas pessoas que eu identifiquei foram a família de Jet – a mãe doidona, o pai apático, a cunhada e o irmão assassinos, só gente fácil de lembrar.

Tem toda uma outra história que a mãe do Billy abandonou a família porque achava que o pai do Billy, marido dela, tinha simplesmente tido um caso com a irmã de Jet de dezesseis anos e tinha afogado a garota para encobrir o caso. E essa mãe do Billy ainda ficou anos e anos casada com esse psicopata e só largou dele anos depois – péra, largou, não. Ela foi embora sem dizer nada, deixando o próprio filho pra trás, morando com um cara que ela tinha certeza ser um assassino.

Daí que o Billy no final do livro confronta o pai, coloca o Luke pra ouvir tudo e leva uma arma também, pra deixar tudo mais fácil. O pai confessa mas diz que nunca vai ser preso porque a confissão não vale de nada, o Luke pega a arma que o Billy convenientemente levou pro lugar, e mata o pai deles.

Billy pisca e respira e pensa que precisa continuar vivendo. Fim.

Claramente não sou o público alvo

O começo do livro é confuso porque não dá pra saber quem é quem. O meio do livro é interessante: Jet estar morrendo e precisar descobrir o próprio assassinato! Isso é bem construído e deixa a leitura ágil. No entanto, o final do livro é só um empilhado da Jet descobrindo as maiores atrocidades da família dela. Daí ela vai lá e morre, triste por não querer morrer mas conformada porque aprendeu a viver. Como eu já sabia que ela ia morrer desde o começo e o livro não deu muito espaço pra eu saber quem era essa mulher, além de uma adolescente traumatizada, eu não fiquei muito chateada quando ela morreu não. Era só parte do livro, com a frustração extra de que ela não conseguiu resolver o caso.

E aí quando o caso é resolvido para o leitor, é só muito insatisfatório porque não faz sentido nenhum. Metade do drama-revelação já foi jogado fora porque sabemos que o Luke é um assassino. E aí o assassinato da Jet não tem nada a ver com o assassinato da irmã dela. Me lembrou aqueles livros de detetive que todo mundo tem algo a esconder mas no caso como todo mundo é da mesma família a coisa fica só inverossímil.

Achei o livro fácil de ler, queria muito saber o final, mas a construção do mistério foi mal feita. Uma pena.

 

Renata

Nas horas vagas eu jogo RPG e faço meus desenhos. Quando dá, eu leio. Se eu conseguir fazer pelo menos uma pessoa ficar feliz com os livros como eu fico já estou mais do que satisfeita com essa vida.

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