Ella é uma jovem linda de família rica que perde a mãe, aí o pai casa de novo com uma mulher que já tem duas filhas, depois morre e Ella é obrigada pela madrasta a virar empregada da casa. A madrasta e as step sisters são super más e tratam a mocinha muito mal – inclusive a chamam de Cinderella porque ela fica toda suja de cinzas por dormir na frente da lareira etc etc.
Um dia, Cinderella está passeando na floresta e conhece um bonitão que também acha ela maravilhosa e rola amor à primeira vista. Quando tem o baile e a Cinderella fica feliz de ir, a madrastas e as irmãs rasgam o vestido dela e tal, e vem a fada madrinha, enfim. Igual no desenho da Disney – que testou a nova moda de homenagear seus clássicos com Malévola, deu super, super certo e agora vai ter mais adaptações homenageantes vindo por aí.
Coisas boas: o filme é visualmente maravilhoso. A história é bem contada. Os personagens são menos pastéis do que no desenho. Passa no teste de Bechdel com honras!
Coisas não tão boas: a história não é nada nova. O duque é mais malvado pouquinha coisa, a madrasta é claramente uma velha invejosa, a fada é chata – tudo igual o desenho. O povo teve a oportunidade de acrescentar, deixar a coisa talvez um pouco menos trouxa, mas preferiram fazer uma versão muito próxima do conto de Perrault com os adendos do desenho de 1950. Vamos repetir? Mil novecentos e cinquenta. A mesma história. Só que mais bonito.
Teve gente falando que o filme é uma boa porque mostra que características ditas femininas – delicadeza, gentileza, passividade, calma perseverança, etc – também são desejáveis numa heroína, já que hoje em dia só as características masculinas de agressividade, impetuosidade e que tais são valorizadas. Então, de acordo com essa galera ae, falar que a Cinderella é uma idiota porque tem essas características seria diminuir a importância da feminilidade e blás. Mas vamos com calma? Vamos. Essas lindas características femininas de docilidade e bobice eram desejadas às moças de 1950 – por mil motivos históricos que não vêm ao caso porque daí ainda mais textão – e o desenho da Disney reforçava o estereótipo. Até aí, ok. A Cinderella é uma das ‘princesas’ mais chatas pra mim especialmente por causa dessa apatia e eterna felicidade diante da adversidade – e a adversidade é importante e quero foco nisso agora. Ela é transformada em escrava. A situação dela é horrorosa nas duas versões da Disney. No filme eles até dão mais motivos para ela não fugir – a casa era dos pais, e ela quer continuar ali porque memórias, amor e tal – mas em ambas as versões ela passa frio, fica sem comida, é abusada verbal e fisicamente. Tudo isso sem perder o rebolado e as esperanças, e tudo isso sem dizer uma palavra descortês às suas algozes. Perceberam a perversidade?
Cinderella não é só uma moça boazinha que trata os animaizinhos bem. Ela é uma moça boazinha que é tratada como lixo e em troca é gentil com suas ‘donas’. E isso é recompensado. É um conselho que ela recebe da mãe – ‘seja sempre gentil’ – e que ela leva pra vida toda, mesmo diante das adversidades. Admirável? Sem dúvida. Um exemplo pas criança? Bem provável. Uma babaca que não consegue desapegar de uma casa e prefere sofrer na mão da madrasta em vez de sair e conseguir ajuda? Certamente. É muito bonito falar que ‘características femininas estão sendo valorizadas’ quando essas mesmas características são marteladas na nossa mente desde criancinha: “mulher de verdade” cuida dos outros, é sempre carinhosa, afável, não ergue a voz nem fala palavrão etc sono. Isso causa desde mulheres em relacionamentos abusivos receberem da sociedade a resposta de que “se você fosse mais de boa ele não seria tão agressivo” até mulheres serem condicionadas a empregos de cuidar, limpar e agradar os outros.
Ser boa e gentil não é necessariamente um conselho ruim. É o “sempre” que é o problema.
Para não me alongar ainda mais, fica o resumo: Um filme visualmente incrível, com boas atuações (especialmente Cate Blanchett, se divertindo bastante), uma fada chata que não deveria ter ficado nas mãos da Helena Boham Carter e um roteiro óbvio.
Bom pra quem gosta de contos de fadas, era apaixonada pelo desenho da Disney ou tem menos de dez anos.
2015 – De Kenneth Branagh. Com Cate Blanchett, Helena Boham Carter, Lily James, Richard Madden, Stellan Skarsgard.