Dias de Despedida | Jeff Zentner

Carver Briggs é um jovem no último ano do colegial em uma prestigiada escola para jovens artistas. Ele forma um quarteto com os amigos Mars, Eli e Blake. Até que um dia os três morrem em um terrível acidente de carro. O pai de Mars é um juiz importante, e quando descobre que a última mensagem lida no celular de Mars veio de Carver, ele instaura um processo criminal contra o jovem, acusando-o de ser responsável pela morte dos outros.

Agora além de sofrer com a culpa por ter mandado a mensagem e de lidar com a perda das três pessoas mais importantes na vida dele, ele também está sendo interrogado pela polícia e por jornalistas. A única parente dos garotos que o exonera de qualquer culpa é a avó de Blake, que pede que Carver passe um dia com ela fazendo as coisas favoritas do seu neto como se fosse um ritual de despedida.

Carver também começa a sofrer ataques de pânico, tem dificuldade de falar com os pais sobre seus problemas e não quer ir para a terapia por achar que aí vai ganhar ‘atestado de louco’ – mas quando todos na escola o tratam mal, já que a irmã gêmea de Eli espalhou para todo mundo que ele é um assassino, ele começa a reconsiderar a história da terapia.

Como se não bastasse, a única amiga que ele tem é a namorada de Eli. E quando ele começa a gostar dela, a culpa que ele sente não ajuda em nada.

A coisa de que mais gostei nesse livro foi a tradução. A história é cheia de flashbacks com os quatro garotos fazendo bosta e dando risada, e não é fácil traduzir linguagem de adolescente de forma natural. Eu imagino que o autor seja bom em escrever diálogos ‘jovens’, mas a tradução poderia ter facilmente estragado tudo. De qualquer forma, a interação entre os adolescentes é muito natural, engraçada e tocante, e a amizade dos quatro é o que segura o livro.

Por outro lado, por mais que me doa dizer isso, o politicamente correto me irritou. (SPOILERS) Mars é negro e aí o pai dele faz um discurso sobre como os negros são sempre criminalizados não importa o que façam. Blake é gay e tem uma cena em que Carver decide contar isso para a avó dele, e ela diz que não fazia ideia mas que o ama de qualquer forma e que sente muito que sua religião talvez o tivesse impedido de contar a ela como ele se sentia. A namoradinha é feminista e passa o livro dando broncas no Carver por comentários machistas e racistas (ela é oriental e adotada) – mas tudo na brincadeira, ela não fica brava de verdade porque ‘ele não fez por mal’.  O terapeuta que Carver finalmente vai é gay, casado com um homem, tem filhos e chora ao lembrar a morte de um antigo namorado espancado por agressores homofóbicos.

Por mais que eu concorde com todas essas ideias, me incomodou a forma como os personagens coadjuvantes viram objeto de cenas que me parecem desenhadas para mostrar ao público alvo da obra – “jovens adultos” – o que é certo e errado. Eu não tenho nada contra literatura edificante, mas esse livro ficou forçado.  Ele passa o tempo todo reclamando da condescendência dos adultos (pois o livro é narrado por Carver), usa palavras difíceis pois ele quer ser um escritor famoso um dia e adora metáforas que aparentemente todos acham maravilhosas mas eu achei sem graça. “Ouvindo sua voz no telefone, eu podia sentir as baratas andando por sua pele e sentir o cheiro dos dentes sujos de nicotina” ou algo assim não me parece algo especialmente inteligente – apenas pretensioso.

No fim das contas o livro fala sobre perda, luto e superação, e tem momentos bacanas. Mas a maior parte dele é só pretensioso, artificialmente moralista e inverossímil. No entanto, eu li até o final – o que é mais do que se pode dizer de muito livro por aí.

Então se você curte dramas adolescentes, esse é um dos que eu até acho que você pode gostar.

Dias de Despedida – Goodbye Days (2017) de Jeff Zentner

Renata

Nas horas vagas eu jogo RPG e faço meus desenhos. Quando dá, eu leio. Se eu conseguir fazer pelo menos uma pessoa ficar feliz com os livros como eu fico já estou mais do que satisfeita com essa vida.

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