Adaptação | Robin Hood (2010)

Fui assistir o esperado Robin Hood. Esperado por mim, que gostei de Gladiador, sou fã do Russell Crowe, adoro filmes de época e acho o Robin Hood o máximo.

Então primeiro eu vou comentar o filme como uma apreciadora de blockbusters em geral. Os personagens são bem construídos. Os figurinos e cenários são muito bem feitos. Russell Crowe, Cate Blanchett e Mark Strong estão muito bem, e Max Von Sydow rouba a cena totalmente (como já era de se esperar). Os amigos do Robin, os já conhecidos Allan A Dale, Will Scarlet, João Pequeno e Frei Tuck estão todos lá, como alívio cômico e ajuda na pancadaria. A historinha, apesar de ser meio clichê, funciona, e as batalhas, que novidade, são um banho visual. Ou seja. Se você gosta de blockbusters, gosta de filmes de ação, gosta do Russell Crowe ou da Blanchett… Dá pra assistir tranquilo.

Eu só esperava uma coisa menos ‘maior’ – tipo ele roubando dos ricos pra dar aos pobres, e não salvando o reino da Inglaterra dos malignos franceses numa batalha épica. Juro, tem uma cena em que eles fazem emboscada na floresta. E duas cenas onde ele atira com o arco, fora a batalha inicial, que não conta, e em uma delas ele erra.

Ok. Agora eu vou falar do filme como sendo eu mesma, já que além de apreciar blockbusters, aprecio uma coisa chamada história medieval.

Russell Crowe está com seus 40 e tantos anos. Cate com 40 e poucos. Na nossa sociedade é claro que ainda podem viver pra cacete, que estão na verdade na flor da idade – sim, estão ótimos, atraentes, charmosos e sou a maior fã deles no universo – mas, gente. Idade Média. Com quarenta anos eles seriam, tipo, corocas. Uma lady de 40 anos com todos os dentes? Até que possível. Um arqueiro do rei, de quarenta anos, com todos os dentes? Pouquíssimo provável.

Tudo bem, o diretor quis dar um enfoque mais maduro ao filme. E narra o início da história do personagem? Ele estando com quarenta?? Vai terminar quando, quando os dois estiverem, pombinhos, lutando com espadas e arcos com seus sessenta? Gente, nada contra as pessoas de 60 anos, na boa. Só acho que o enfoque medieval pediria um elenco um pouco mais jovem ou um roteiro mais de acordo – como o excelente Robin e Marian, com Sean Connery e Audrey Hepburn.

Maaas, o diretor queria usar os cacifes dos caras. Beleza. Eu é que não vou reclamar do Russell e da Cate, longe de mim.

Portanto, passemos às outras considerações.

Arquearia medieval

Os ARCOS. Ok, temos batalhas realistas. Certo?? ERRADO. Sabem porque a Inglaterra era tão foda na guerra? Por causa dos arqueiros de arcos longos. Motivo #1: os arcos longos tinham maior alcance do que seus irmãos menores, os arcos curtos, e que suas irmãs mais rápidas, as bestas. Motivo #2: ter um alcance maior adiantava bastante, mas o principal era que o arco podia ser desmontado. Era só desenvergar a corda, enrolá-la, guardá-la num local seco, e pronto! Uma arma à prova d’água! Ou vocês não sabiam que corda de arco molhada é tão efetiva quanto uma bicicleta quando usada pra transportar elefantes? As bestas, que não exigiam força do sodado, eram mais difíceis de serem armadas e desarmadas, e acabava que, quando chovia (algo comum na Inglaterra), elas ficavam inúteis. Ponto para os arcos longos.

Agora me expliquem as batalhas do filme com arcos longos na chuva e no mar? Me expliquem a Lady Marion envergando um arco longo e atirando com ele, sendo que aquela porra pra envergar é tenso pra caramba e pra atirar pior ainda? Ou ninguém tentou atirar com arco e flecha na vida? Pois é, ninguém. Mas então não venha o sabichão do Ridley Scott me falar que o filme dele tem compromisso histórico.

A dona Magna Carta

Por falar nisso, vamos brincar de considerações históricas. Claro que Robin Hood é uma lenda. E claro que Hollywood nunca é simples e quis brincar de reinventar a lenda, pra audiência não ficar entediada – já que afinal de contas quem quer ver salteadores com arcos e flechas roubando dos ricos pra dar aos pobres (oi, tipo, eu! Eu quero ver um filme do Robin Hood!!). Só que ao reinventar a lenda, eles cometeram algumas incongruências.

A Magna Carta, assinada pelo rei João em 1215, falava dos direitos dos homens livres e dos servos, além de limitar o poder do rei perante a nobreza. Sabe quem era os homens livres? RICOS DONOS DE TERRA. Por mais que a magna carta seja considerada uma parte importante na história das leis constitucionais, ela ganhou muito mais nome porque os revolucionários dos Estados Unidos usaram ela de base pras coisas. Na prática, ela foi forçada a João pelos seus barões, que queriam mais liberdades, mas foi basicamente ignorada até o início da Guerra Civil inglesa do século XVII. Só que era principalmente sobre os direitos dos nobres e da igreja. A parte sobre os plebeus se limitava à proibição da prisão sem julgamento, que era, vamos combinar, um passo importante na época. Mas ops! Leram bem? Assinada pelo rei João. Não queimada em praça pública na frente de todos os barões.

Nem o rei João seria tão estúpido a ponto de quebrar um combinado feito com todos os senhores de terras da região como se eles fossem meros suditetes sem poder. Isso é coisa de reis absolutistas, algo mais em voga… TREZENTOS ANOS DEPOIS.

O príncipe João realmente traçou planos para usurpar o trono do irmão, o famoso Ricardo Coração de Leão. Mas o rei Filipe da França, que no filme é o maligno responsável por invadir a Inglaterra, estava… nas Cruzadas com Ricardo. Ops de novo…

E o digníssimo Ricardo, que morreu num cerco com uma flechada no ombro enquanto passeava em volta do castelo sem cota de malha (meus parabéns), havia nomeado seu irmão João como herdeiro legítimo. Não sem antes cercar o castelo de Nottingham e pedir gentilmente que João lhe devolvesse o local, assim que chegou das Cruzadas. Ou seja. Houve uma segunda coroação. Ricardo, que por sinal não falava inglês e só havia passado alguns meses do seu reinado na Inglaterra, voltou ao lar, foi coroado rei novamente e depois saiu de novo pra reconquistar suas terras na Normandia, que eram muito mais importantes que a Inglaterra.

Alguém se importa com isso? Ninguém. Aparentemente o povo se importa com o sotaque, no entanto, e qualquer pessoa com um mínimo de sangue inglês nas veias reclamou que o sotaque que o Russel Crowe cometeu era uma mistura que ele inventou pessoalmente. Mas então não venha o sabichão do Ridley Scott me falar que o filme dele tem compromisso histórico.

Fora os arcos usados por mulheres; fora o rei João absolutista no século doze; fora a lady Marian de cota de malha; fora o Robin Hood atirando de arco com corda molhada; fora as batalhas sem infantaria; fora todos os personagens terem todos os dentes; fora ele ter usado o arco duas vezes e ter errado a primeira… fora tudo isso, ele sobreviveu ao tempo só porque foi salvo pela próxima adaptação estelar cometida, como fatalmente acontece em Hollywood.

Robin Hood (idem) – 2010 | de Ridley Scott | com Russell Crowe, Cate Blanchett, Mark Strong, Max Von Sydow, William Hurt e Oscar Issac 

Renata

Nas horas vagas eu jogo RPG e faço meus desenhos. Quando dá, eu leio. Se eu conseguir fazer pelo menos uma pessoa ficar feliz com os livros como eu fico já estou mais do que satisfeita com essa vida.

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