Dinheiro Sujo | Lee Child

Talk about a piece of media that you recommend.

Primeiro preciso contar como que eu cheguei nesse livro. 1) Eu pedi pros meus alunos apresentarem por dois minutos sobre algum filme ou série ou game que eles quisessem recomendar. Eles tinham passado o curso todo falando de coisas técnicas então se divertiram com a tarefa. 2) Entre os esperados animes e games, alguns falaram de cinema ou séries. Teve até uma garota que falou de uma série musical do Disney Channel sobre uma menina que se apaixona por um zumbi (!). E um dos alunos recomendou a série Reacher, que, segundo ele, era uma série para homens de verdade. Ele disse ‘real men‘ mesmo, sem ironia, porque era uma série violenta, ‘no-nonsense’, que o protagonista é um ex-soldado que ai por aí sem casa nem documento matando homens malvados pra salvar pessoas.

3) Eu fui olhar a série, porque acho divertido ver o que os homens acham que é feito pra eles, e achei a primeira temporada o esperado. Bastante ação gráfica, um pouco de humor, um protagonista que não demonstra emoções (praticamente autista, na verdade), e uma gostosete pra ele se envolver. Reacher é inteligente, sagaz e cheio de deduções, mas ele também é um monstro de quase dois metros e músculos enormes que esmaga a cara das pessoas. O roteiro é cheio de furos, mas os coadjuvantes são ótimos, o ritmo é excelente, e a série é mais uma daquelas que é só sentar e se divertir. Masculinidade daquelas de macho alfa, que não se envolve, protege a mulher, tem código próprio e detesta covardes.

4) Portanto fui ler o primeiro livro do autor, que foi justamente o utilizado como base para a primeira temporada da série. A série fez um trabalho bem decente de adaptação e merece texto separado.

A primeira coisa que me surpreendeu foi que o livro é narrado em primeira pessoa. Eu sempre acho interessante ler thriller em primeira pessoa. Tem vários parágrafos do Reacher analisando a trajetória da bala antes dele explodir a cabeça de alguém? Sim. Tem ele pensando nos peitos da policial? Tem também. Mas é refrescante.

Segunda coisa boa é que o livro é do final dos anos 90, e é sempre legar ler thriller que se passa nessa época tecnológica. Nada de celular o tempo todo. Quase não tem internet. Sair por aí com dinheiro no bolso é normal, só quem é muito rico que usa cartão de crédito. Ser um nômade sem residência fixa é muito estranho, mas mais factível do que hoje. Como que você vai ser um investigador em 2025 se não tem nem um celular pra ver as coisas? A série lida com isso apenas ignorando essa parte, mas o livro ainda está em 97. As pessoas usam fax e xerox. É bem divertido.

Jack Reacher está perambulando pelos Estados Unidos depois de sair do exército. Ele passou a vida em várias bases pelo mundo e decidiu conhecer A América. Numa bela manhã de sexta feira, ele chega numa cidadezinha no meio do nada, Margrave – Georgia. E cinco minutos depois que senta pra tomar um café, é preso por assassinato. O acusador é ninguém menos que o chefe de polícia, que diz que viu ele passando pela cena do crime.

O detetive Finlay, um incongruente negro de meia idade vindo de Boston, é super competente, e portanto tende a aceitar a inocência de Reacher. Já a policial Roscoe acha que ele tem ‘kind eyes’ e também não aceita que ele tenha atirado num cara no meio de um galpão vazio, depois recolhido as balas pra não deixar rastros, depois limpado o corpo de vestígios que o possam identificar, depois voltado perto do corpo pra chutar o cara um milhão de vezes, depois deixar o corpo meio coberto por um papelão velho, depois ir pra cidade tomar café da manhã.

Mesmo com Finlay e Roscoe achando que Reacher é inocente, o chefe de polícia diz que viu ele na cena do crime e pronto. E a empresa de ônibus, que poderia provar que Reacher estava dentro do ônibus vindo pra Margrave em vez de no meio do galpão atirando em pessoas, só vai poder responder isso na segunda feira. Então Reacher vai ter que passar o fim de semana na cadeia estadual. Nada sério, celas para quem ainda não foi julgado, etc.

Esse é um excelente começo pra um livro ágil que acertou em cheio no protagonista. A história tem as reviravoltas necessárias com um pano de fundo fascinante, o romance obrigatório não atrapalha e a leitura acabou sem eu nem perceber. Eu não diria que ele é um livro pra homens de verdade (mesmo porque redpill nem lê ficção). Mas achei interessante que nos anos 90 na literatura não precisava de muita conversinha: o cara olha pra mina, ela quer de volta, eles vão pra casa dela transar. Tudo tranquilo, com respeito. Ele fica gostando dela, e chora quando vai embora. Homem de verdade chora quando larga a moça? Reacher tem algumas dúvidas de vez em quando. Deveria ter matado essas pessoas? Não dura muito e ele logo decide que sim, deveria ter matado sim.

O prólogo do autor na edição que eu achei, escrito muitos anos depois da publicação, comenta que ele escreveu Reacher para ser perfeito sem defeitos e sempre ganhar, porque é o tipo de protagonista que o próprio autor gosta de ler. Ele usa o termo vicarious pra falar sobre como ele gosta de ver os bandidos sofrerem, os políticos corruptos sendo presos, criminosos se dando mal, e que ele, como leitor, se sente melhor vendo o protagonista fazendo isso. Vicarious significa ‘algo experimentado na imaginação através dos sentimentos ou ações de outra pessoa’. Que nem quando a mãe fica feliz que a filha virou médica porque a própria mãe sempre quis ser médica. A gente quer punição para os milionários que estão poluindo rios e lavando dinheiro de droga. Reacher faz isso pra gente, e a gente se sente melhor.

Me diverti muito com essa vicarious satisfaction ou sei lá como poderia ser o termo. Jack Reacher é um Jason Bourne mais mentalmente estável. Certamente vou atrás dos outros livros da série.

Killing Floor (1997) de Lee Child (James Dover Grant, UK) Série Jack Reacher Livro 1

Renata

Nas horas vagas eu jogo RPG e faço meus desenhos. Quando dá, eu leio. Se eu conseguir fazer pelo menos uma pessoa ficar feliz com os livros como eu fico já estou mais do que satisfeita com essa vida.

One thought on “Dinheiro Sujo | Lee Child

  1. Oi Renata o/

    A classificação de “Para homem de verdade” para mim significa classificar histórias com protagonista homem agressivo, vencer os bandidos na base da violência ao invés de poesia, sexo primal sem cortejo de flores, e salvar a donzela em perigo sem a problematização de que ela poderia se salvar sozinha.

    E histórias que não se importam em colocar o Protagonista pensando nos Peitos da Policial xD.

    Por isso acabam sendo histórias que buscam agradar mais o público masculino, as custas de possivelmente ofender parte do público feminino — onde algumas podem achar bem chato esses trechos, pensar “Aí, que Vulgar” ou “Que protagonista machista >/”.

    Agora, tem uma parte do público feminino que gosta, ou até prefere, histórias assim. Tipo, tenho amigas que adoram Peaky Blinders e o Protagonista Autista Psicopata kkkkkk.

    E tem homens que acham que esse é o Modelo de Homem legal: homem sem sentimentos, psicopata, autista, e frio. Mas acho besteira, melhor ter muitos sentimentos mas com maturidade e inteligência emocional.

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