Eu vi a autora reclamando no Instagram que o livro dela não tinha sido aceito por editoras porque acharam que não teria público. Ela portanto foi atrás de publicar por conta, e estava falando de como é difícil ser autora de um gênero fora do comum e tal.
O livro é sobre uma espiã que vira princesa que é raptada por uma capitã pirata e tá escrito LGBT então imaginei que as duas vai ter um romance. Óbvio que comprei imediatamente, e comecei na empolgação.
Spoiler que claramente a editora não recusou porque ‘gênero fora do comum’, ou porque ‘anti-LGBT’. Se foi um editor competente que leu esse livro, foi recusado porque é só ruim mesmo. Que ódio que me dá quando uma premissa tão boa é completamente estragada pela incapacidade de escrita do autor.
Eu não aguentei nem 30% do livro, já abandonei, já tô aqui falando que não presta. Alguém tem livro com capitã pirata pra me indicar???
Georgina é a narradora. Ela é uma jovem de família nobre empobrecida que está indignada com a situação de opressão que os pobres estão sofrendo. Para ajudar na ‘revolução’, ela trabalha como espiã para um cara que tem uma gráfica secreta e publica campanhas anti-governo. O príncipe Beverly é um homem terrível que taxa os pobres, cria guerras, faz festas mirabolantes enquanto o povo passa fome; é o vilão padrão.
George, como ela gosta de ser chamada, descobre de repente que seu irmão mais velho que nunca se importou com ela aceitou dar ela em casamento para o príncipe Beverly. Como a sociedade é extremamente machista estilo Handmaid’s Tale, George não tem escolha a não ser aceitar.
Eu desisti do livro antes de chegar na parte da capitão pirata porque a George é uma narradora insuportável. As frases de efeito, os choramingos, as atitudes imbecis: é só muito, muito chato. Ela deixa claro desde o começo do livro que ela é lésbica. Aí ela conhece o príncipe, que trata ela como ser humana. Aí ela fica “nossa mas ele era pra ser um monstro como que vou conseguir confiar nele mas ele é bonito e charmoso e como vou conseguir lidar com essa questão”. Ela sabe que a criada dela tem ligação com os rebeldes. Aí ela fica “nossa mas será que eu posso confiar nela, como vou sobreviver sozinha no palácio eu nem sei ser uma nobre direito sou uma excluída vou chorar e pedir pra criada passar a noite comigo”.
Ela não tem escolha a não ser casar com o príncipe, certo? Então ela precisa tipo que ele goste dela, precisa agir de acordo com seu papel de princesa nobre desmiolada. A primeira coisa que ela faz é se jogar na frente de uns guardas pra proteger um moleque mendigo que joga lixo nela em protesto – os guardas obviamente vão pra cima da criança e ela sai da carruagem gritando “parem! Não o machuquem! É apenas um garoto!” Quando o príncipe chega, ela fica “nossa mas será que ele vai me punir; será que eu me entreguei; será que eu estraguei tudo e ele não vai querer mais casar comigo e será que sendo rainha eu poderia mudar algo”.
Pode ser que ela seja só uma idiota que vai ter desenvolvimento ao longo da história? Pode até ser. Mas a cada parágrafo ela tá chorando que ‘os nobres usam roupas que poderiam alimentar uma família pobre por meses’. A cada frase ela reclama que tá sozinha, que não sabe o que fazer. Quando vai espionar o príncipe, sai por aí trombando nas coisas, fazendo barulho. Até sua carreira de espiã foi só na cabeça dela, porque ela era uma incompetente e o irmão sabia de tudo.
Me incomoda muito personagens que sabem como o mundo funciona (afinal, elas vivem naquele mundo!) e ficam se surpreendendo com coisas óbvias pra mostrar pro leitor que as coisas ruins são ruins. Odeio personagens femininas que não são como as outras garotas, e não se interessam por vestidos ou casamento e sim pelas pessoas pobres. Uma coisa não exclui a outra! É possível gostar de roupas bonitas e ter consciência de classe!
Se você nasceu e cresceu num mundo machista e por algum milagre da natureza você é capaz de perceber que sofre opressão, não faz sentido se surpreender quando é oprimida, especialmente se sua personagem é supostamente ciente e capaz de ser uma adulta. Como que a menina ficou meses, talvez anos, trabalhando de espiã contra o governo, e não sabe como funciona o sistema de classes sociais da própria nação???
Tudo isso é reclamação minha porque fiquei indignada. Quase nunca compro livro justamente porque é tão difícil achar coisa bem escrita. E daí eu vou lá e gasto dinheiro num livro na esperança de algo diferente e interessante – PIRATAS LÉSBICAS – e no fim das contas é mais um livro mal escrito com protagonista insuportável. Cadê mulheres inteligentes nos livros????
Pode ser que um dia eu tenha paciência pra tentar terminar. Mas do jeito que ficou, é um DNF convicto.
OBS eu fui ler spoiler e o plot twist eu vi vindo desde 30% do livro. DNF com sucesso.
OBS2 o tempo todo o livro falando das mulher coberta 100% do corpo porque oprimidas e sendo presa por mostrar qualquer pele até do braço e tal. E a capa me coloca uma doidona com costas de fora.
Uncharted (2021) | Alli Temple | The Pirate & Her Princess livro 1