Serpente | Rex Stout

Lançado em 1934, esse é o primeiro livro com o detetive Nero Wolfe. Gordo, excêntrico, e extremamente genial, ele por si só é um personagem difícil. Ele é sarcástico, não gosta de ninguém, só quer saber de comida cinco estrelas e cuidar de orquídeas, e odeia sair de casa. Wolfe só trabalha como detetive pra conseguir pagar as contas, detesta qualquer tipo de mulher e muitas vezes resolve seus casos com a simplicidade de alguém com uma moral bastante particular: quando se depara com um assassino que vai fugir da justiça por falta de provas, Wolfe não tem o menor problema em usar sua personalidade magnética pra simplesmente convencer o assassino a cometer suicídio.

Mas aí entra a genialidade do autor. Para contrapor a personalidade difícil de Wolfe, temos Archie Goodwin. Um jovem atlético, bem-humorado e bonitão, Archie tem  um apreço bastante saudável por qualquer mulher atraente o suficiente. Ele se comporta como as pernas e os olhos de Wolfe fora de casa, andando pra cima e pra baixo interrogando suspeitos e tentando convencê-los a ir até a casa de Wolfe, onde o detetive obeso está aguardando na sua cadeira feita sob medida para o seu peso.

Se não fosse a narrativa especial de Archie, e sua humanidade, Wolfe seria só insuportável. Do jeito que as coisas foram criadas, no entanto, Rex Stout inventou a dupla perfeita. Archie faz a conexão com o leitor, já que nem sempre está a par das maquinações cerebrais do gênio; ele também não tem paciência alguma para as excentricidades do gordo, mas é obrigado a aceitar a maioria das manias do chefe porque afinal é o cara mais inteligente do planeta – e que paga o salário dele.

Fer-de-lance

Nesse primeiro livro já vemos o início da maravilhosidade. Temos Fritz Brenner, o chef pessoal de Wolfe, preparando maravilhas na cozinha. No quarto andar, há a estufa privativa de Wolfe, onde Theodore Horstmann, “babá de orquídea”, segundo Archie, fica cuidando das milhares de flores de Wolfe. E temos o trio de ajudantes, Fred Durkin, Orrie Cather e Saul Panzer, que eventualmente ajudam Archie quando Wolfe precisa de mais gente para seus planos mirabolantes.

Serpente” tem uma premissa incrível que inicia a série de livros com uma bela de uma trama.

Maria Maffei é a melhor amiga da esposa de Fred Durkin (um dos já mencionados ajudantes eventuais de Wolfe). Ela tem um irmão, Carlo Maffei, que sumiu. Ele estava de passagem comprada num navio pra voltar pra Itália, já que seu trabalho como trabalhador aço e ferro não estava dando retorno na América. Só que logo antes de sumir ele ligou pra irmã falando que tinha achado um jeito de ganhar muito dinheiro e que ele pagaria de volta pra ela tudo o que ele tinha pego emprestado. E daí ele sumiu.

A polícia acha que ele só pegou o dinheiro da irmã e se mandou pra Itália, mas Maria tem certeza de que algo estranho aconteceu. Tem também o telefonema misterioso: de acordo com a moça que trabalha na pensão onde Carlo mora, ele havia recebido algumas ligações de um homem, e da última vez, Carlo gritou que não tinha medo de nada e que o cara ia ver só e que ele queria encontrar pessoalmente.

Apesar de não querer trabalhar, Wolfe acaba convencido pela insistência de Maria, e manda Archie conseguir alguma coisa. Archie consegue a mocinha que trabalha na pensão de Carlo e que limpava o quarto dele. Anna Fiore aceita o convite de Archie de passear de carro e conversar com Wolfe, e depois muitas horas de conversa aparentemente inocente, Wolfe chega num ponto importante.

Pulos geniais

Carlo lia jornal todos os dias. Ele recortava os anúncios de emprego, lia o resto, e dava de presente os jornais no fim do dia pra Anna. E na semana anterior ao seu sumiço, Carlo havia dado o jornal pra Anna com um enorme quadrado da primeira página retirado com tesoura.

Wolfe faz seu primeiro pulo genial: essa primeira página era relevante no desaparecimento de Carlo. Wolfe manda Archie buscar todos os jornais disponíveis da semana anterior e faz Anna olhar um por um, até que ela diz ‘foi esse’. A matéria de capa que Carlo tinha recortado era sobre a morte de Peter Oliver Barstow, um eminente professor de uma universidade, de ataque do coração durante um jogo de golfe.

Segundo pulo genial: Wolfe decide que Carlo, sendo um artesão especialista em metal, tinha alguma coisa a ver com essa morte. A única coisa de metal na cena eram os tacos de golfe. Portanto, Carlo ajudou a transformar um taco de golfe em uma arma do crime. Com isso em mente, Wolfe pergunta pra Anna, “Alguma vez você viu algum taco de golfe no quarto do senhor Maffei?”

E pronto, a menina fica muda. Se recusa, diz que não quer mais falar disso, que está cansada e quer ir embora.

Archie sai por aí

A partir daí o livro fica uma movimentação só: Wolfe tem que arranjar um jeito de exumar o corpo pra testar sua teoria; e também tem que conversar com os outros participantes do jogo. Além do professor Barstow, os jogadores eram os senhores Kimball, pai e filho, vizinhos do morto, e um médico amigo da família. Archie claro que arranja um jeito de se aproximar da filha do professor, a adorável porém assustadíssima Sarah Barstow.

Quando a polícia descobre o corpo de Carlo Maffei, morto com uma facada e largado no meio do mato, e quando Wolfe descobre que ninguém da família Barstow poderia ter matado o professor, Wolfe precisa de mais um pulo genial, parando no assassino.

Por ser o primeiro livro da série, muitas das características dos personagens ainda não foram estabelecidas, mas, como eu disse, a genialidade já está lá. Apesar de ser uma trama pouco divertida e com um final dramático, tudo é bem característico de Wolfe, e a única coisa que falta é mais Archie. Ele tem mais espaço nos próximos livros, e ainda bem. Wolfe é por demais melodramático e amoral.

A propósito, fer-de-lance é um dos nomes de uma serpente da América do Sul. O assassino de Barstow esconde ela na gaveta da mesa de Wolfe pra ver se impede o detetive.

Fer-de-lance (1934) de Rex Stout – EUA. Série Nero Wolfe Livro 1

Renata

Nas horas vagas eu jogo RPG e faço meus desenhos. Quando dá, eu leio. Se eu conseguir fazer pelo menos uma pessoa ficar feliz com os livros como eu fico já estou mais do que satisfeita com essa vida.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *