Em sua sétima aparição, o detetive Nero Wolfe já tem sua reputação. Ele é obeso, não gosta de sair de casa, detesta trabalhar; é um gênio excêntrico que tem orquídeas caríssimas numa estufa na sua casa e tem um cozinheiro profissional premiado internacionalmente para cozinhar suas refeições.
A graça dessa história vem em parte da gente já conhecer as características de Wolfe. Então, quando uma moça estrangeira pede para falar com ele porque a amiga dela está em apuros, e ele se recusa a ajudá-la, e ela contra-ataca com “mas ela é sua filha”, a reação nossa é a mesma do Archie. É o quê?!
Carla Lovchen, a moça que veio pedir ajuda, e sua amiga Neya Tormic, a filha em apuros, trabalham numa academia de esgrima. Neya está sendo acusada de ter roubado diamantes de um milionário. Ela é instrutora de esgrima, ele é aluno, e ele viu ela mexendo no casaco dele no vestiário, e depois sentiu falta dos diamantes no bolso dele.
Wolfe manda seu assistente bonitão Archie Goodwin ir até a academia pra ver o que está rolando. Assim que Archie consegue organizar uma conversa, o milionário aparece com um advogado, pedindo desculpas que ele se confundiu e que os diamantes estavam com a secretária dele e ele tinha se excedido.
Em casa, Wolfe descobre que Carla escondeu um documento dos mais comprometedores em um livro do escritório dele. Aparentemente Carla e Neya estão completamente envolvidas em uma conspiração internacional que envolve financistas dos Estados Unidos, concessões de florestas no leste europeu, e até agentes da família real da Croácia.
Após isso, Wolfe pede que Archie volte lá na academia de esgrima, pra ver se descobre mais alguma coisa. O que Archie descobre é um dos alunos morto, atravessado com uma espada de esgrima. E o instrumento que foi acoplado à ponta da espada para deixá-la afiada a ponto de matar alguém está enrolado em uma luva de esgrima e enfiado no bolso do casaco de Archie.
A trama é bastante agitada, com tantas ramificações pessoais e políticas. Os personagens são interessantes o suficiente pra gente permanecer se divertindo mesmo quando Wolfe começa a fazer discurso. O título do livro, over my dead body (só por cima do meu cadáver), é em referência à visão de Wolfe de que a juventude radical do leste europeu insiste em se matar por motivos políticos.
Um detalhe interessante é que o FBI faz uma aparição no livro. O agente aparece pra cobrar Wolfe de ser um agente estrangeiro se metendo com política estrangeira. Wolfe responde que ele nasceu nos Estados Unidos e é um cidadão americano. Como parte da excentricidade do Wolfe é justamente que ele não nasceu nos EUA e se tornou cidadão americano só mais tarde, essa frase fica estranha. Mais tarde, quando falando sobre isso, o autor disse não concordava com a intromissão do FBI na vida pessoal dos outros e que Wolfe tinha só mentido ahahaha (e também disse que nunca achou que alguém fosse se importar com essas diferenças).
Termino com uma citação do livro.
“I’m resigning as of this moment.”
“Resigning from what?”
“You. My job.”
“Rubbish.”
“No, boss, really. You told the G-man you have never married. Yet you have a daughter. Well—” I shrugged. “I’m not a prude, but there are limits—”
Over My Dead Body (1940) | Nero Wolfe #7